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Uma lágrima para Bebeto

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Obrigado pelo suor e também pelas lágrimas, Bebeto.

Você foi herói em cada jogo, mesmo sem entrar em campo. Você foi um de nós. Você é um de nós. Com Heleno de Freitas e João Saldanha para te receber, você estará em casa. Em família. Agora você é mais uma Estrela.

Obrigado pelo zelo e pelo amor que você tantas vezes demonstrou pelo seu time. Tantos episódios marcantes: a entrada ao vivo em programas de tevê para defender com veemência Dodô e o Botafogo, a reação forte ao peitar a polícia pernambucana e tentar proteger o zagueiro André Luís no estádio dos Aflitos, a emoção com as lágrimas derramadas por ver seu time roubado mais uma vez em uma final estadual. E, tempos depois, mesmo já consolidada a imagem depreciativa do gesto, dizer que tinha orgulho e não se arrependia, porque eram lágrimas de raiva, mas também lágrimas de um defensor incondicional do seu time do coração.

Bebeto era assim: veemente, intransigente, irascível, intenso, apaixonado. Como Heleno e João Saldanha. Sua saída intempestiva da presidência, quando praticamente abandonou o fim do mandato para aceitar uma proposta de emprego, magoou bastante a torcida. Mas, além da atitude, o que ele fez para tirar o Botafogo da Série B e ter o seu próprio estádio é coisa pra se guardar pra sempre do lado esquerdo do peito.

O coração de Bebeto parou de bater em território alvinegro, porque as únicas cores de sua vida foram o preto e o branco.

Bebeto, você morreu como viveu: com o Botafogo no Coração. Continuar lendo

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Heleno x Botafogo: O incômodo e a lição

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Antes de mais nada: “Heleno” é um grande filme. Não deixe de ver. Rodrigo Santoro tem atuação assombrosa, a fotografia do mestre (e alvinegro) Walter Carvalho é deslumbrante, o monólogo final é de arrepiar.

(Acho que, a partir de agora, você deveria ler somente depois de ver o filme, pois vou comentar algumas cenas importantes)

Mas… (e na história do Botafogo tem sempre um “mas”, né?), na modesta opinião deste alvinegro, falta mais Botafogo em “Heleno”. Consequentemente, falta mais Heleno em “Heleno”.

Acho que houve excesso de zelo dos produtores e do diretor, assumidamente com medo de afugentar o público feminino e os torcedores de outras bandeiras. Ficaram tão receosos de a imprensa e o público rotularem “Heleno” como um filme de futebol que fizeram um filme sobre um ídolo de futebol com pouquíssimas cenas de… futebol. Em especial, do que há de mais apaixonante no futebol: a glória do gol. Que foi a maior glória do verdadeiro Heleno com a camisa alvinegra.

Basta dizer que a namorada latina (colombiana? argentina? uruguaya?) do jogador tem direito a três, quatro números musicais. Já o melhor do jogador Heleno é resumido a uma partida, contra os grenás, no início, e contra os urubus, no fim. Sua derrocada, porém, está minuciosamente narrada – e, da forma com que a história é conduzida, dirigentes e jogadores alvinegros desempenham papéis antagônicos ao do protagonista. Como se Heleno não fosse o Botafogo, como ele mesmo diz, e demonstra, na já famosa cena do esporro no vestiário que acaba com o jogador cantando o hino, essa sim, uma cena que já nasce antológica, de lavar a alma do torcedor da Estrela Solitária e de exibição obrigatória antes de qualquer decisão.

Na sessão que assisti na noite de sábado em Brasília, quase lotada, um encontro cordial (outros três alvinegros foram ao cinema com a camisa oficial) e um incômodo inesperado: risadas debochadas de torcedores de outros clubes, e da plateia em geral, quando o técnico diz que o Botafogo “está cansado de ser vice-campeão” e quando Heleno espinafra as manias de superstição do time.

Acho que aí está resumido o motivo do meu incômodo: ver, na tela do cinema, o eterno embate entre o Botafogo Glorioso e o Botafogo Patético, ou que os outros consideram Patético, como vocês preferirem. Não esperava que essa contenda fosse mostrada em “Heleno”, ainda que de forma enviesada. Não esperava que “Heleno”, enfim, enxergasse o Botafogo como seu adversário.

Encerrada a sessão, porém, o incômodo vai se dissipando. Prevalece o orgulho de ter tido um jogador com tamanha personalidade e carisma defendendo apaixonadamente as cores do meu time – e olha que ele nem é um dos cinco maiores ídolos do clube. Renasce a esperança de que o binômio “glórias e títulos” não seja tão amargamente assimétrico, como foi no caso da trajetória de Heleno no Botafogo.

 

E, ao ver nos créditos as fotos do verdadeiro Heleno, o espírito alvinegro volta a ficar impregnado, acima de tudo, da lição de amor à camisa, da demonstração de amor ao clube, de inconformismo diante da mediocridade, da acomodação, do apequenamento, do cruzamento errado, da derrota, do empate.

O melhor de Heleno está na sua avassaladora paixão pelo futebol quando o futebol era sinônimo de Botafogo. E essa paixão, com filme ou sem filme, com deboche ou sem deboche, tem dono: ela nos pertence.

E sempre nos pertencerá.

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Obrigado, Heleno de Freitas.

Você não foi.

Você é.

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PS: Mais fotos históricas, do arquivo da revista O Cruzeiro, e uma longa reportagem sobre a glória e o drama do verdadeiro Heleno de Freitas na seção “Especiais” do site: http://www.mg.superesportes.com.br

Botafogo 1 x 1 Treze: Aqui, não!

“Aqui, não!” Gritou Jefferson para o trezeano que resolveu brincar de cavadinha e permitiu ao nosso goleiro defender a cobrança sentado, usando só a mão esquerda, finalizando a série de pênaltis na final da Liga dos Campeões, digo, da primeira fase da Copa do Brasil.

Eu aproveito o desabafo de Jefferson, coisa rara na trajetória de um jogador tão tranquilo (e por isso mesmo tão sintomática de um problema maior), para dizer que dá vontade de chegar em General Severiano e, ao ver apontar o Marcio Azevedo e o Fábio Ferreira, gritar: “Aqui, não! Aqui, não!”

De tirar o Jobson de campo enquanto ele não recuperar a plena forma física e gritar para o departamento médico que não dá para conviver com tantas lesões no início da temporada: “Aqui, não! Aqui, não!”

De ter coragem de tirar o Loco Abreu da relação de cobradores de pênaltis, logo ele que fez uma ótima partida, fazendo um gol e fazendo pelo menos três assistências: “Nessa lista aqui, não! Nessa lista, aqui, não!”

De dar parabéns ao Herrera pelo espírito de luta, pela garra, mas apontar para o gramado e dizer que ele não tem condições técnicas de ser titular do Botafogo: “Ali, não! Ali, não!”

De fazer o departamento de futebol do Botafogo entender, de uma vez por outras, que com esse elenco limitado, não chegaremos a lugar nenhum. “Aqui no meu time, não! Aqui no meu time, não!”

De determinar que o Botafogo não foi feito para sofrer, pelo segundo ano consecutivo, na primeira fase da Copa do Brasil. E de lembrar que ganhar na disputa de pênaltis do Treze só não é mais humilhante do que ser eliminado da mesma forma.

Enfim, é preciso muitos gritos de “Aqui, não!” para que o Botafogo volte a conquistar a dimensão que tem, e que construiu de forma tão gloriosa. E dá um baita desalento perceber que estamos muito, muito longe desse dia.

Parabéns, Jefferson. Por pegar o pênalti e por ter, na noite de quarta-feira diante de 3 mil testemunhas no Engenhão, incorporado o espírito explosivo de Heleno de Freitas naquela mistura apaixonada e catártica de grito com desabafo. Por um instante, você lavou a nossa alma – mas o corpo continua dolorido, sofrido, castigado, anestesiado.

Você, Jefferson-Heleno, mereceu a classificação. E só você mereceu essa classificação.

Foto: Lancenet!

André Luis na cabeça! E, agora, uma pergunta difícil…

Que a truculenta tenente Lúcia Helena da PM pernambucana não nos leia, muito menos o árbitro do jogo contra o Estudiantes no Engenhão pela Sul-Americana do ano passado…mas, entre os leitores do FogoEterno, quem mandou bem foi o André Luis!

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Na enquete encerrada nessa quinta-feira, nosso ex-zagueiro, atualmente sem clube, venceu com 30% dos votos. A pergunta era em relação ao elenco de 2008: qual dos jogadores do ano passado seria um bom reforço para 2009? A vitória de A.Luis, na minha avaliação, não se deve apenas às (nada excepcionais) virtudes do zagueiro, mas também ao fato de que o torcedor alvinegro não é cego e percebeu, logo nas primeiras partidas da Taça Guanabara, que o sistema defensivo é o principal problema do Botafogo 2009.

Na segunda colocação, uma demonstração de confiança no novo elenco (ou melhor, de desconfiança e de desilusão no elenco anterior…), com 20% de votos para a opção “Não,obrigado”. Ou seja, nada de antigos fantasmas para assombrar General Severiano – basta os que já temos…

Em terceiro lugar, o jogador diferenciado, “para o bem e para o mal”: sim, Lúcio Flávio! Também debito parte desses votos à dificuldade que o atual time demonstra na armação de jogadas e  na condução da bola do meio até o ataque.

Pelo mesmo critério, além da disposição e da raça inexistentes no jogador citado anteriormente, entendo a colocação de Carlos Alberto em quarto lugar, com 10% dos sufrágios.

Na sequência, ficaram Renato Silva (9%), Túlio (7%) e Diguinho (6%). Jorge Henrique teve 1% de votos e Wellington Paulista, zero. Ou seja, o ataque não parece ser problema para os nossos leitores – ou é o menor dos problemas, o que tendo a concordar.

Enfim, quero deixar registrada a lembrança do eleitor solitário que sentiu falta da dupla de pesos-pesados Zárate e Escalada, e sapecou um voto para os argentinos!

Bom, obrigado a todos que participaram da votação e agora, conforme prometido, uma enquete para abalar as estruturas de General Severiano.

Qual é o jogador do Botafogo que você mais idolatra?

Pergunta “fácil”, não? Percebam a sutileza – a ideia não é eleger o maior ídolo da história do Botafogo, mas o jogador que você mais gosta, que você mais admira, que você idolatra incondicionalmente, enfim, aquele com o qual você mais se identifica. E, graças a São Carlito Rocha, no caso do Botafogo, um clube que REALMENTE tem MUITOS ídolos por possuir uma GLORIOSA HISTÓRIA, essa escolha é particularmente difícil. Se fosse em outros times, acho que nem haveria opções na enquete…

Valendo!

Histórias Gloriosas – As crônicas do Pereirão: O time que é Glorioso também nos botões…

C. Pereira

 Oswaldo, Gerson e Santos; Rubinho, Ávila e Juvenal; Paraguaio, Geninho, Pirilo, Otávio e Braguinha.

Essa era a escalação do time do Botafogo de Futebol no ano de 1948. Os botafoguenses mais antigos (como eu) sabem de cor e salteado essa formação até porque era uma equipe quase invencível: foi campeã carioca daquele ano e só não ficou invicta porque perdeu, na primeira rodada, para o modesto São Cristóvão, pelo surpreendente placar de 4 x 0.

Daí em diante só colecionou vitórias sucessivas, vencendo e bem todos os clássicos, inclusive o temido Vasco da Gama, duas vezes, em General Severiano e em São Januário.
 Claro que o meu time de coração, campeão do Rio, eu aí pelos 10 anos, era só alegria. Dava gosto ver o Botafogo jogar, mas como não havia ainda televisão, a gente se contentava em ouvir a transmissão das partidas pelo rádio e , nas semanas seguintes, ver nos cinemas da cidade os melhores lances dos jogos no Canal 100, de Carlinhos Niemeyer, flamenguista que era responsável pelas melhores imagens do futebol, sempre exibidas antes do filme principal, a título de “complemento”.

Mas o timaço alvinegro acima descrito não era somente importante porque foi campeão carioca. Para mim, sua importância maior estava no fato de que aqueles jogadores estavam representados nos campos de botão, nos torneios que se jogava à época, em que o bairro onde eu morava,  Jaguaribe, se destacava como um dos  mais requisitados. Nas principais ruas eram disputados campeonatos que atraíam dezenas de aficionados, muitos sem time presentes apenas para acompanhar e torcer pelos seus clubes preferidos.
 Os jogos de botão tinham regras próprias e os regulamentos dos certames eram discutidos, aprovados e cumpridos à risca.

Havia até uma Federação de Jogos de Botão, depois apelidada de celotex –  nome que, aliás, nunca pegou. Os donos dos times gastavam dinheiro na compra de botões e sempre estavam atentos às novidades na construção de campos de jogo (folhas de madeira, bem lixadas e tratadas com cera, de formato quadrangular) que eram, por assim dizer, modelos reduzidos dos campos oficiais de futebol.
Os botões eram feitos de vidro, de chifre, de baquelita e até de quenga de coco. Quando aparecia um botão feito do tampo de relógio Lanco que algum rico deixava no relojoeiro, era uma festa. Os botões tinham os nomes dos craques e, ao lado,  aparecia o escudo dos clubes: o meu Botafogo, por exemplo, tinha a belíssima estrela solitária devidamente entronizada no meio do botão.
Confesso que nunca fui exímio jogador de botão, mas – como no futebol propriamente dito – sempre me constituí em excelente torcedor. Assim, quando apareceu um outro time do Botafogo, de um companheiro de rua, cujos botões eram mais aplicados (talvez porque o jogador fosse melhor), não tive dúvidas: recolhi os meus craques e passei a torcer por aqueles botões que tinham a mesma estrela solitária, porém com uma grande  diferença: o centro-avante era Heleno de Freitas, considerado um dos melhores jogadores daquele tempo, cujo mérito era marcar muitos gols e, assim fazer com que o time ganhasse mais vezes.
 Agora, quando lembro aqueles saudosos campeonatos de jornadas gloriosas do Fogão (também no jogo de botão), só me resta recordar a escalação do meu Botafogo campeão de 1948 e resumir tudo isso nos  versos da famosa canção de Ataulfo Alves:
 … Era jogo de botão pelas calçadas – eu era feliz e não sabia…

C. Pereira é jornalista, alvinegro e não fala do Botafogo 2008 desde a chegada do Geninho. Sinal preocupante…