O voo do Tanque

“São demais os perigos desta vida”, escreveu um dia o poeta alvinegro Vinicius de Moraes, o mesmo que, ao apresentar o Brasil a um estrangeiro, perguntava: “Me diga sinceramente uma coisa Mr. Buster, o senhor sabe lá o que é torcer pelo Botafogo?”.

Se vivo fosse, Vinicius poderia pergunta ao jovem xará Vinicius: “Me diga sinceramente uma coisa, xará: você sabe lá o que é jogar pelo Botafogo?”. Até a noite de 11 de outubro de 2017, Vinicius não saberia responder. A aposentadoria forçada de Montillo, o drama de Roger e a comoção com a alegria de Giulia ao “sentir” o gol do pai, as venturas de Jairzinho-Jair, a intensidade de Gatito, o estoico Jefferson, a campanha épica na Libertadores,  a afirmação da geração “Não se compara”… São demais as emoções deste time nesta temporada. Eis mais uma delas.

Vinicius Rodolfo de Souza Oliveira, descubro na internet, nasceu em 1995. É mais velho do que eu julgava. Ou apenas menos jovem. Parece um pouco tímido, na dele, nada marrento, bem ao contrário de Sassá, outro jovem atacante revelado pelo alvinegro. Mas Vinicius nasceu em 1995 chamo novamente a atenção para o fato. E 1995, como todos sabemos, foi um ano especialmente glorioso. O ano do título, o ano de Túlio. Maravilha o ano de 1995.

Vinicius Rodolfo não parece ser nome de jogador, mas de ator de novela mexicana. Então Vinicius, sabe-se lá por ideia de quem,  ganhou o apelido “Tanque” como nome profissional e somente os que carregam o codinome como sobrenome (não é, Alex Muralha?) sabem o peso cármico que recebem ao serem assim conhecidos dentro e fora de campo.

Pois bem: mesmo com poucas participações no time titular, Vinicius Tanque já é campeão em contestação por boa parte da torcida alvinegra (entre eles, este que aqui escreve). Tudo porque pouco fez nas poucas chances que teve. E, digamos assim, não demonstrou muita intimidade com a bola ao recebê-la.

A corneta ganhou mais fôlego quando o Botafogo divulgou pouco antes do jogo que o contrato com VT havia sido prorrogado até 2020. Fiquei também irritado, mas algo me comoveu na foto que registra a concretização do acerto.

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O Tanque não tinha nada de bélico na foto. Parecia um estudante fazendo prova na sala de aula. Um menino feliz. Mas a tal assinatura despertou ainda mais as reações extremadas da torcida. E funcionou como combustível para o que ocorreu na noite de quarta-feira no Niltão.

O Botafogo caminhava para mais um revés dentro de casa quando Jair Ventura chamou Vinicius e disse: “Você vai entrar”. Tanque foi vaiado já no aquecimento, ainda mais quando entrou no campo. Entrou em campo como o Marvin da música dos Titãs: com todo o peso do mundo nas costas.

E parecia que sucumbiria às toneladas carregadas na camisa. Até que, no último lance do jogo, no último minuto dos acréscimos, justo naquele momento que o Botafogo entregou seis pontos para SPFC e Vitória dentro de casa, o futebol virou mágica. E poesia.

Um cruzamento perfeito de Pimpão para o centroavante reserva. Uma assistência preciosa, vinda das chuteiras de quem também tinha entrado no segundo tempo e pouco havia produzido. Um toquinho para Vinicius.

Braços e pernas estendidas, o centroavante subiu mais alto do que todos. Sobrevoou a zaga da Chapecoense, ignorou o goleiro Jandrei, quase bateu na cobertura do Nilton Santos (sim, exagero) para ter o posicionamento perfeito e assim aproveitar o cruzamento perfeito de Pimpão. Usou a cabeça, com frieza e oportunismo.

Ocupou a pequena área com a segurança de um veterano, como quem se apossa do que sabe que lhe pertence, como fazia Túlio em 1995, quando Vinicius era apenas um bebê no colo dos pais. Passado e presente se juntaram naquele instante. E a bola já balançava as redes quando Vinicius aterrissou, a chuteira branca tocando a marca da cal embaixo do travessão, agora sem o peso do mundo em suas costas. Mais leve. Pronto para o futuro. Pronto para receber o abraço dos amigos e os aplausos da torcida.

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Tudo se transfigura depois de um gol tão importante: para o time, para a torcida, para a carreira do jogador. Antes de ser abraçado por outros jogadores e comissão técnica, Vinicius saiu comemorando sozinho, de braços abertos – sem provocar ninguém, sem mandar ninguém calar a boca, exigir silêncio, nada disso. Era um momento dele, somente dele. O que será que passou pela cabeça do Vinicius naquele momento de alegria, alívio, catarse, glória? Jamais saberemos.

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Mas sabemos de outra coisa, ainda mais importante. Na véspera do Dia das Crianças, o menino Vinicius, nem mais tão menino assim, ganhou responsabilidade de adulto. Diante dos olhos de todos e sob a bênção dos deuses alvinegros, Vinicius cresceu.

O Tanque voou.

São demais as emoções desta vida alvinegra.

Agora, me diga sinceramente Mr. Buster, Mr. Donald, Mr. Sam, Mr. de qualquer outra nação ou outra torcida: você sabe lá o que é cornetar Vinicius Tanque e depois comemorar um gol do Vinicius Tanque?

Nós, alvinegros como o poeta, sabemos.

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