Nilton Santos em três atos: Crônica do Pereirão

A última página da Enciclopédia

                                                                             Carlos Pereira

Três passagens inesquecíveis me levam a Nilton Santos que foi se juntar  a Garrincha  e  nos deixou todos  nós, botafoguenses, mais tristes e pesarosos além do futebol brasileiro mais pobre.

A primeira data de 1948 e foi pelo rádio Phillips holandês que meu pai mantinha na sala de estar da modesta casa onde morávamos que ouvi o nome de Santos (naquela época era somente o sobrenome dele que aparecia na escalação) fazer parte do time  campeão carioca: Osvaldo, Gerson e Santos;Rubinho, Ávila e Juvenal; Paraguaio, Geninho, Pirilo, Otávio e Braguinha,  que só não foi campeão invicto porque perdeu na primeira rodada para o São Cristóvão e de 4×0. No  resto passou por cima como se fosse um trator – deu no Vasco, no flamengo, no Fluminense, no América, no Bangu, no Bonsucesso, Madureira, Canto do Rio  e no Olaria. Tinha eu, então, 10 anos e a partir daí se iniciou uma história de amor, paixão, alegria, desilusões, sentimentos intensos – tudo por causa do Botafogo de Futebol  e Regatas.

A segunda aconteceu em 1959, quando concluinte do curso médio no Liceu Paraibano a nossa turma foi contemplada com uma viagem a Minas Gerais, patrocinada pelo então Governador Bias Fortes. De navio de João Pessoa para o Rio, de ônibus do Rio para Belo Horizonte e na volta pelo Rio, o prazer de ver, pela primeira vez, bem de perto, no estadinho de General Severiano, Newton Santos (já com o nome e ainda em inglês) ao lado de Garrincha enfiar uma goleada num dos times pequenos do campeonato carioca – não lembro qual…

A terceira e mais marcante foi a honra que ele me concedeu de fazer a apresentação do seu livro “Minha bola, minha vida”, no dia 30 de outubro de 1998, aqui em João Pessoa numa sala especial do Hotel Tambaú, lotada de botafoguenses e até torcedores de outros clubes, admiradores do futebol daquele que Nelson Rodrigues denominou de “enciclopédia”.

Agora, quando escrevinho estas linhas, me encho de emoção ao ler a sua dedicatória no livro que guardo como verdadeira relíquia: “Ao botafoguense Carlos Pereira, com forte abraço do Nilton Santos”, o  Nilton em bom português.

E ao relembrar tudo isso, choro pelo que o futebol brasileiro perdeu quando Nilton Santos deixou de jogar – ele sim, era craque na acepção melhor que o termo pode contemplar.

E só me resta dizer: Foi escrita a última página e a enciclopédia se  fechou para sempre. Nunca mais haverá um jogador como Santos, Newton ou Nilton.

O céu ganhou mais uma estrela solitária e o Glorioso se quedou mais triste…

Carlos Pereira é jornalista, pai e avô de duas gerações de alvinegros

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3 Respostas para “Nilton Santos em três atos: Crônica do Pereirão

  1. Pereirão (permita chamar assim), Marcelo,

    Sentimento que o Botafogo ficou muito mais frágil! Perdemos um Ídolo que sempre colocava o Botafogo e nós, Botafoguenses, para cima!
    Lembro que todos os torcedores que tiveram oportunidade de estar com ele, falarem que ele confiava no retorno do Velho e Bom Botafogo! O Botafogo que ele fez Glorioso e reconhecido internacionalmente!

    Hoje, programa na Band TV, Gérson, canhotinha de ouro falou sobre ele. Ficou emocionado e os olhos marejados. Disse que daqui um século pode surgir outro jogador parecido, igual jamais!
    Hoje, vendo outro programa na ESPN Brasil de matérias sobre Nilton Santos, vi a cumplicidade com outros jogadores e o Amor pelo Glorioso!

    Ficamos mais frágeis e espero que o espírito, energia, do Nilton Santos tragam excelentes fluídos para General Severiano! Que tenhamos novos ares, oxigenação no clube a partir de 2015!

    Abs e Sds, Botafoguenses!!!

  2. A grandeza do Botafogo vem de ter-se apoiado no ombro de alguns colossos. Nilton Santos foi o maior deles. O modelo ideal de atleta-torcedor, de entrega substancial e desapegada a um time e a uma torcida.
    Ilhéu filho de pescador, esse fato explica muito da sua humildade apostólica.
    Nilton chegou a um Botafogo que ainda respirava a atmosfera do amadorismo, e, na sua caminhada, testemunhou a época de maior engenho e maior arrojo gerencial na história do clube. Nilton foi, dentro de campo, o eixo dessa transformação:
    De um Botafogo que jogava de pés descalços, e se restringia a ser o recreio domingueiro da juventude da zona sul, para o clube que ficou estampado na história dos maiores.
    Não é possível, para a maioria de nós, saber exato quem foi Nilton Santos. Os felizes que o acompanharam no auge das suas proezas, e que poderiam descrevê-las, já, muitos deles, morreram. O que nos ficou foi a sombra, o revérbero, a lenda erigida pelos olhos assombrados que o viram jogar. É nosso dever guardar esse fogo, protegê-lo, atiçá-lo, repassá-lo aos pósteros, como a gente mortal tomando da tocha de Prometeu.
    O que Nilton foi de fato, o alcance do seu gênio, só podem dizer aqueles que há cinquenta anos tinham maturidade suficiente para deleitar-se de viva presença com seus jogos, numa época sem videoteipe.
    Nós outros só podemos admirar a lenda, que muita vez não faz jus ao homem, ao seu talento, seu vigor, sua técnica impecável, seu refinamento e sua inteligência, como fossemos o arqueólogo que supõe, debaixo dos seixos, a cidade magnífica que ficou extinta.
    Não vimos, mas sabemos que existiu, e como foi grande.
    Em especial para nós, botafoguenses, Nilton foi o fiador de que, um dia, existiu um time imenso, glorioso, um esquadrão dos sonhos, o maior da história, a defender a nossa estrela.
    Com a morte do Nilton, não digo que morreu o Botafogo; morreu, sim, o grande Botafogo, esse lendário, que nos orgulha, e que serve como argumento persuasivo dos pais para a torcida dos filhos, geração após geração.
    Esse Botafogo, a partir da última quarta feira, está material e espiritualmente defunto. O Botafogo, doravante, é o que faremos dele. Hora de deixar de ser tutor do seu passado, que se finou com o Nilton, para tratar do que será no futuro. É dessa forma que não vamos deixar o Nilton Santos morrer.

  3. Umas notas sobre enterro e o velório.
    Nilton teve um enterro indigno do que ele foi e representou.
    Se o que sucede no velório é o sumário do que foi a vida de alguém, não parece que Nilton Santos foi muita coisa. Se ele é o maior ídolo da nossa história, não parece que o Botafogo é importante.
    Vá lá que o mais das pessoas não liguem importância a um jogador aposentado há mais de 50 anos. Os botafoguenses, que nos temos por ciosos das nossa tradições, tínhamos obrigação de fazer da morte do Nilton uma comemoração multitudinária da sua vida. Estávamos sepultando o nosso Maomé, o nosso Santo Graal, não há partida de futebol, não há evento nem título cuja importância se sobreponha ao enterro do nosso maior ídolo.
    No período de maior movimento, menos de dois terços do salão ocupados com alguma densidade. Vi menos gente no velório do que costumo em dias de eleição ou tardes de autógrafo em General Severiano.
    No cortejo que seguia o carro de bombeiro até o cemitério, umas duas dúzias de pessoas, número que foi rareando à medida que o carro acelerava a marcha, contornando o morro do pasmado.
    Á beira do sepulcro, havia apenas pouco mais de uma centena de pessoas.
    Entende-se que essa torcida, tida por si como de espírito e intelecto superior, deixe de encher dois Maracanãs a cada rodada do campeonato.
    Mas não se entende, nem se desculpa, que tão poucas pessoas tenham comparecido ao enterro do nosso maior, o centro de gravidade desse microcosmo chamado Botafogo.

    Nota particular, nesse episódio, deve ser dada à oficialidade botafoguense.

    Os interesses maiores do Botafogo, na última quinta-feira, não estavam na Suíça, na Dinamarca, ou em Bangladesh. Estavam percorrendo, em quase solidão, as aleias do São João Batista.
    Os sócios do clube, aqueles que não puderam comparecer pessoalmente, não estiveram representados, no enterro do Nilton Santos, pelo presidente eleito.

    Essa ausência ficará como uma mancha singular, inapagável, na história dos mandatários do Botafogo.

    em tempo: minha esposa percebeu que o Nilton foi enterrado numa sepultura que fica localizada, da perspectiva de quem está de frente para o portal de entrada, na extrema ponta esquerda do cemitério.

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