A reinvenção de Seedorf

fotoseedorfnohorto

A imagem acima, do fotógrafo Gabriel Castro, foi captada no estádio Independência, na vitória do Botafogo em cima do Cruzeiro no Brasileirão no ano passado. É uma das fotos mais bonitas que vi nos últimos tempos pela plasticidade do movimento e pelo óbvio significado simbólico: todos que nela aparecem foram transformados em figurantes, pois só há um protagonista. Clarence Seedorf.

Placar final: Cruzeiro 1 x 3 Botafogo. Foi no dia 05 de setembro de 2012. Eu estava lá.

Testemunhei uma das maiores exibições individuais de um jogador com a Estrela Solitária no peito. Dois gols e uma assistência (para o Jadson): com passes tão precisos quanto os chutes, Seedorf destruiu o time azul.

Torceremos para que aconteça de novo na próxima quarta-feira. Mas acho que dessa vez será mais difícil, não só porque o adversário demonstra maior consistência defensiva. Mas também porque Seedorf parece estar um pouco mais distante da exuberância física e técnica que o fez brilhar naquela e em tantas outras batalhas.

Seedorf está cansado. Mais: em algumas partidas, Seedorf parece extenuado. E, por isso, tem sido facilmente desarmado, em especial quando a marcação “dobra” e ele acaba, ao perder a bola, gerando perigosíssimos contra-ataques. Também tem errado passes que não costumava errar e aquelas inversões de bola, tão frequentes, não têm sido mais tão certeiras.

Parece que o despropositado calendário brasileiro, que prolonga por quatro meses um secundário campeonato estadual e comprime partidas importantíssimas em uma maratona de quarta-domingo, fez mais uma vítima. Pois, analisando agora em retrospecto, é claro que aqueles jogos sob calor de 40 graus em Moça Bonita & adjacências iriam gerar algum tipo de efeito. Ainda mais em um jogador que jamais havia enfrentado uma temporada inteira sob o clima tropical – e que caminha para o fim da carreira.

Sim, meus amigos, infelizmente Seedorf não é eterno.

A visão de jogo do holandês, entretanto,  permanece intacta. E, mais do que isso, sua capacidade de diagnosticar (e ajudar a controlar) o timing de uma partida continua assombrosa. E essa virtude será fundamental no returno do Brasileirão. Virtude que nenhum outro time possui, nem mesmo o atual líder da competição. Virtude que pode ser resumida em uma palavra: liderança.

Só que Seedorf tem mais a oferecer do que liderança. Ele, como já declarou em recentes entrevistas, está com fome de ganhar. E conseguiu contagiar os outros jogadores, em especial os mais jovens, com  o mesmo apetite. No mata-mata da Copa do Brasil, essa fome faz toda a diferença. Ainda mais quando vem acompanhada pela fome do Bolívar, do Lodeiro, do Jefferson, do Rafael Marques…cada um com uma motivação individual para aguçar esse apetite, além, claro, do espírito coletivo. Essa fome, eu acredito, pode ajudá-lo a superar a fadiga.

Com a inteligência privilegiada que tem, certamente Seedorf já percebeu que terá de buscar outras soluções dentro de campo para não se tornar uma presa fácil para os seus marcadores. Oswaldo também já deve ter percebido. Por isso, eles podem procurar juntos as alternativas para driblar as consequências do cansaço. Parece ter ficado mais difícil, por exemplo, sem a velocidade do Vitinho (e notem que o Seedorf não fez nenhuma grande partida, do ponto de vista técnico, desde a saída do atual atacante do CSKA). Mas pode, e deve, passar pelo aperfeiçoamento da principal característica ofensiva do Botafogo: a dinâmica. Dinâmica que, felizmente, não foi abalada com a saída do Vitinho.E que ganhou mais força com a chegada  frequente à linha de fundo dos laterais Julio Cesar e Edilson – muitas vezes acionados pelo holandês.

Ah, então o que deve ser feito? Barrar o Seedorf? Não, claro que não. Até porque, percebam: mesmo sem estar no auge, ele participou de boa parte dos gols alvinegros das últimas partidas. E, com um tirambaço de fora da área que explodiu no travessão, quase converteu em três pontos o empate contra o São Paulo. Sua lucidez é o nosso farol.

Seedorf, mesmo não consegue ser 100% Seedorf, continua sendo fundamental. Sim, ele pode ser poupado estrategicamente em algumas partidas, mas quem vai se arriscar a tomar essa decisão?

Já que ninguém para de falar que o Botafogo está se reinventando a cada semana, aqui fica o meu pedido de mais uma reinvenção.

Seedorf, reinventa-te a ti mesmo.

seedorffogo

Para que sua luz continue a ofuscar os adversários – e a nos iluminar.

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7 Respostas para “A reinvenção de Seedorf

  1. Acho que a queda de rendimento do Seedorf foi imediatamente após a denúncia do mulambo de que ele não é 100% unanimidade no Botafogo. Lógico, coincidência?. Pode tê-lo deixado um pouco triste, mas com certeza o maior mal é o calendário. Ele precisa descansar. Jogar só um tempo, talvez o 2º que costuma ser menos desgastante.

  2. Ah, desculpe, belo post. Emocionante de ler. Aliás todos seus posts são ótimos. Você, o Caio Araújo e o Rica Perrone são fantásticos. Parabéns!

  3. Marcelo,

    Mais um texto Brilhante! Como bem disse o Wilian: Emocionante!

    Costumo dizer que existia um Botafogo antes do Seedorf e outro Botafogo, completamente diferente, após a chegada do Seedorf.
    Espero e torço muito para que ele fique no Botafogo após encerrar a carreira. Nem que seja como conselheiro do nosso departamento de futebol.

    Abs e Sds, Botafoguenses!!!

  4. (LANCENET {Realidades opostas! Cruzeiro investiu 40 vezes mais, para buscar título e Botafogo se reinventou)
    Então, poderia eu dizer, independente do resultado desta 4ª, que a comissão técnica do BFR, OdeO e Seedorf, é disparada, a melhor comissão técnica do Brasil 2013.
    Cléto Martins

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