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Um instante, uma imagem, uma emoção

Um instante, uma imagem

Permitam-me voltar ao clássico de domingo para comentar um instante muito especial da vitória.
Falo do momento em que, após o lançamento magistral de Jefferson e o passe preciso de Gabriel, a bola quicou duas vezes na frente de um garoto de 19 anos (vai fazer 20 somente em outubro, informa-me o site oficial do Botafogo).
Não marquei no cronômetro, mas certamente aquele momento durou menos do que dez segundos. Para mim, durou uma eternidade.
Ali estava a oportunidade para a estocada final no adversário, para não só assegurar o resultado mas destravar o grito da garganta, guardado desde o início da partida (não, o golaço do Julio Cesar não me fez cantar vitória, muito pelo contrário) e exorcizar uma multidão de fantasmas de uma só vez, sendo que o mais doloroso deles, sem dúvida, era o jejum de vitórias em cima do maior rival, dentro da nossa própria casa. Sem contar a data, tão especial para o adversário, e a série invicta, igualmente festejada.
E a chance de cravar o rumo da história caiu nos pés de um menino que nasceu dois anos antes de um certo Túlio Maravilha balançar as redes do Pacaembu e nos conceder a mais perene das alegrias.
O menino, descubro também no site oficial alvinegro, chama-se Victor Vinicius Coelho Santos.

Victor, de Vitória.
Santos, de Nilton.

Vitinho.
Foi para Victor Santos que os deuses do futebol ofereceram uma bola caprichada, açucarada, única. E o Olimpo caprichou: decidiu presentear aquele garoto carioca com a possibilidade de um gol sem goleiro, como nas peladas da praia, naquele momento em que o sol acabou de ir embora e, já na penumbra, quem fizer por último encerra o jogo e a vida perde a magia do futebol e volta a ser a vida besta de sempre.
Este derradeiro momento de felicidade foi ofertado ao Vitinho. Logo a ele, que já tinha desperdiçado duas chances de marcar, por causa da afobação e da inexperiência. Logo a ele, que tinha ao seu lado um mestre chamado Clarence Seedorf e, à frente, apenas um defensor desorientado, grogue, prestes a beijar a lona.
Sim, meus amigos, os deuses ofereceram a oportunidade de nocautear, em nossa casa, o nosso maior adversário.

Eu vi o Vitinho aceitar, com gosto, a oferenda dos deuses do futebol. Eu vi o Vitinho chutar forte e estufar as redes do Engenhão. E eu vi o Seedorf erguer os braços e abrir um sorriso do tamanho do estádio, mostrando a expressão de quem já passou por tantos momentos gloriosos como aquele, e agora pode se permitir a felicidade de compartilhar a alegria com os que estão começando.

Aquele jovem, com o dedo polegar na boca, pegou a bola e colocou embaixo da camisa. Na hora, veio a certeza: estava homenageando a chegada de um outro menino. O tempo parou quando eu olhei aquela barriga feita de bola de futebol. Para minha surpresa, percebi que, fora de campo, o menino já tinha se tornado um homem. E, agora, tinha chegado o momento de crescer em público, dentro de campo, diante de todos, para alegria de todos nós.

Então eu vi o Vitinho correndo e sorrindo para comemorar o seu primeiro gol como profissional. E eu vi meu filho, somente três anos mais novo, gritando com o gol daquele menino. No Seedorf, eu vislumbrei a alegria do meu pai. No Vitinho, eu reconheci o sorriso do meu filho.

Eu vi o tempo.

Por isso é que eu torço, e não posso parar: porque, apesar de todos os pesares, o Botafogo ainda é capaz de me proporcionar instantes capazes de despertar essa emoção tamanha.

 

PS: O instante que inspirou esse texto foi eternizado na voz de Luiz Penido, na Rádio Globo. Vá no link a seguir, procure no 1min26 e comprove:

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14 Respostas para “Um instante, uma imagem, uma emoção

  1. Marcelo,

    A tua inspiração me emocionou, pela segunda vez, com esse gol e jogo!

    Faz muito tempo que não me sinto tão bem!

    Esse poema merece chegar ao Vitinho!

    Abs e Sds, Botafoguenses!!!

  2. Marcelo, belo texto para um belo jogo. Bela associação com a música eternizada na voz do Rei RC e também da Maria Betania. Arrepiou!
    Aproveito para devolver a provocação do mestre Pereirao. Fui buscar o significado da palavra “arretado”. Nao o significado tão fácil de entender na visão do nordestino guardado no coração. Lembrei de um amigo paulistano que sempre que me ouve com expressões nordestinas indecifráveis pra ele, me pergunta: “Isso eh bom ou eh ruim?”. Decidi ajudar a cariocas, paulistas, mineiros e outros alvinegros Brasil afora.
    A palavra “arretado”, provavelmente vem da rigidez do “aríete”. Instrumento de guerra medieval composto de um tronco longo e rígido e na ponta uma estrutura de ferro ou bronze. Na maioria das vezes esculpida a cabeça de um carneiro. Ferramenta usada para derrubar defesas inimigas.
    Arretado, rijo, devastador, vertical, então, eh algo bom para quem usa e desastroso para o inimigo.
    Eu diria que o Vitinho foi “Arretado”, nao?

  3. Realmente foi uma vitória inspiradora. Belo texto.
    Aproveito para lembrar que o sub-20 fará a decisão do 1º turno contra o fluminense no próximo sábado.
    Louve-se o trabalho das categorias de base do clube.

  4. A crônica me fez lembrar o grande Armando Nogueira. Sobre os elogios (justos) muito obrigado pela parte que me toca…

  5. Marcelo, lindo texto, gostoso de ler e emocionante. O Luiz Penido definiu bem: “Botafogo, o time dos extremos!” Um gol no início e outro no fim da partida. Marcelo, perdi por uns instantes os sentidos no momento do 2º gol, deu uma tonteira e eu cai deitado no sofá, fiquei estático, com os olhos fechados, não conseguia abrí-los. Meu pai achou que eu tinha desmaiado. O cachorro do meu pai, “Biriba”, o qual eu dei o nome, veio para cima de mim e eu nem percebi.

  6. Belíssimo texto, parabéns!!! Não vejo texto tão bem redigido na maioria dos jornais de país. Não lhe conheço, mas é de enorme talento! Mais uma vez, parabéns!!!!! E dá-lhe Fogo!!!

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