A culpa é minha: uma crônica alvinegra

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Desde que, por motivos profissionais, passei a freqüentar assiduamente a ponte aérea Belo Horizonte-Brasília, tenho como companheiro inseparável um radinho de pilha (R$19,90), hábito adquirido na infância após os devidos ensinamentos do cronista titular desse blog, o Pereirão. Alguns minutos antes, ligo na CBN Rio para acompanhar o pré-jogo — e, no intervalo, gosto de ouvir o Evaldo José gritando “Que lindo!” e de prestar atenção nos comentários, tão pertinentes quanto mal-humorados, do Alvaro Oliveira Filho. Toda semana, o radinho vai e vem na minha mochila; certamente já acumulou mais milhagens do que o Lula em tempos presidenciais.

No ano passado, durante o Brasileirão, deixei o rádio em BH apenas uma única vez — naquele fatídico jogo contra o São Paulo, no Engenhão. Resultado: o Loco perdeu o gol mais feito da história pré-Deivid, o São Paulo empatou naquele lance dos 500 anos (Rogério Ceni para Rivaldo) e a gente reviveu aquele gosto tão familiar de guarda-chuva.

Foi o primeiro sinal  — e eu o ignorei.

Supersticioso que sou-e-tento-não-ser, pensei no que poderia ter sido alterado na rotina e lembrei a ausência do meu amigo invisível. Jurei que nunca mais falharia na tarefa de carregá-lo comigo — o Botafogo, sim, falharia seguidas vezes, mas com Caio Jr colocando a culpa na torcida e a estranhíssima entregada na reta final, não havia simpatia que resolvesse o nosso problema.

Muito bem: começa a temporada 2012 ao mesmo tempo que retomo, devidamente acompanhado pelo radinho, as viagens semanais. Mas o meu companheiro passou a emitir sinais de fraqueza, tipo Elkeson no segundo tempo (ou Lucio Flavio o tempo inteiro). Nem com pilhas alcalinas foi possível reanimá-lo. Meio a contragosto, tive que comprar outro. E isso aconteceu justo na última quinta-feira.

O novo rádio (R$29,90) é bem mais potente, som ótimo, dá até para ouvir com o chuveiro ligado sem precisar fechar a torneira. E foi com esse rádio, novinho em folha, que escutei atentamente o pré-jogo (o Botafogo ganhou de 7×4 na escalação ideal dos especialistas da rádio, entre eles um Dejair se declarando alvinegro e um Valber bem alegrinho) e, depois que deu um pau no link do computador ( é dura a vida de quem não tem PFC disponível o tempo inteiro e por isso, é surpreendido ao se deparar, em vez de vasco x flamengo, com América-MG x Nacional de Nova Serrana ), tive que acompanhar os penais na base do som. Sim, meus amigos: sem imagem.

Quando o juiz apitou o fim do tempo regulamentar, eu só pensava em duas coisas: no confronto Cavallieri x Loco no Brasileirão e no meu velho rádio. Tentei ressuscitá-lo, e ele (o rádio, não o Loco) até deu lampejos de vida: aquele foi o segundo sinal. Mas eu, de novo o preteri. Pior: decidi chutar a superstição para o alto, como se fosse um pênalti cobrado pelo Elano. Voltei ao novo radinho e liguei no volume máximo, pronto para berrar “Fogo!”: seria um grito que acordaria não só o hotel, mas a vizinhança inteira, forte o suficiente para rasgar o silêncio na Savassi e acordar até o fantasma de Tancredo no Palácio da Liberdade.

Bem, o resto da história eu e todos botafoguenses já sabemos — menos o Oswaldo, a julgar pela alucinada entrevista pós-jogo na qual enxergou uma superioridade alvinegra: o grito virou silêncio. Tivemos mais uma noite maldormida e um dia de ressaca. Para os botafoguenses, a quarta-feira de cinzas caiu na sexta.Dessa vez, porém, a culpa não foi das vaias da torcida do Bonsucesso, das camisas esquisitas do Oswaldo, da falta de pernas do Loco, da falta de pontaria do Herrera, da falta de neurônios do Márcio Azevedo.

A culpa é toda minha. Mas, de hoje em diante, nada será como antes: todo dia de jogo do Botafogo, em qualquer direção que eu estiver, mesmo tecnicamente morto, meu radinho combalido mas pé-quente continuará me acompanhando.

Meu rádio, cinza e prata por fora e alvinegro por dentro, é o verdadeiro, o autêntico, o único talismã.

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6 Respostas para “A culpa é minha: uma crônica alvinegra

  1. Sou seu fã amigo! Leio seu blog a meses e vou continuar lendo!

    Tem Facebook?

    Tenho uma página do fogão que em 2 semanas já tem 2 mil curtições (sem divulgação ainda).

    Sou o proprietário da maior comunidade do Botafogo no Orkut, com 250 mil usuários. E vou começar a migrar o pessoal pro Facebook em breve.

    Gostaria de contar com sua presença na página.

    Sendo um dos “redatores”.

    Segue meu Face, para que você me adicione:

    http://www.facebook.com/jordanfelippe

    Ats.,

  2. E eu pensava que a culpa era minha !!!1 Por quê ??? Porque saí no horário do Banco e segui para casa. Por via das dúvidas fui trabalhar no segundo expediente já devidamente uniformizado. (Atraí olhados ruins ??) Chegando em casa não resisti e fiquei no jogo da Eurocopa. Pensava que o jogo do Botafogo seria às 22 horas. Quando dei por mim faltavam 20 minutos para o início do jogo e tinha somente 3 Heineken na geladeira. Não existia mais tempo para repor o estoque !!! Fora as Heineken somente Antarctica para segurar a mediocridade dos nossos atletas. No Bar da Carminha – Única que vende Antarctica aqui em Xapuri, a cerveja estava quente. Corri para o boteco mais próximo e trouxe 4 Kaiser. Economizei as Heineken até dentro do impossível. Ganhávamos de 1 a 0. Aí fui obrigado a abrir uma Kaiser. Terminei de beber a pobrezinha na cozinha para não assistir as nossas cobranças de longa distância das penalidades finais.
    Abraços,
    Luis Celso
    PS.: Comentário no tópico anterior:
    Assistindo ao jogo através da tv e comentando no Twitter escrevi em certo momento que era assustador os flores acertando os cruzamentos e perdendo gols enquanto nós errávamos passes e cruzamentos. Também que não entendia a tática de “linha de impedimento” implantada ao final do jogo e ganhávamos de 1 a 0. Chegando aos pênaltis peguei minha garrafa de cerveja, meu copo e fui para a cozinha deixando na sala o seguinte comentário: “De pertinho estávamos errando passes imagina com a longa distância da marca do pênalti !!!”
    Abraços,
    Luis Celso

  3. Desta vez, deixo o parentesco de lado e afirmo, sem medo de errar: essa crônica poderia ter sido escrita, há muitos anos, pelo grande Armando Nogueira, na sua festejada coluna “Na grande área”, do Jornal do Brasil, dos velhos tempos. Os dois são jornalistas, os dois (embora um já se tenha ido) são botafoguenses e, tirando a parte que me toca, os dois escrevem muito bem.
    Só posso me congratular com esse cronista, paraibano (Armando era acreano) de nascimento e brasiliense por adoção, inteligente e, principalmente botafoguense de quatro costados.
    Eu, que um dia também já fui bom nisso, confesso – não faria melhor.

  4. De antemão digo q ganhar ou perder é do futebol mas lendo no Cantinho Botafoguense* o comentário do Sérgio di Sabbato (isso dá até tese de pós-doutorado, sobre “os poderes no futebol”), gostei especialmente qdo ele escreve “(…) mas a mídia desempenha um papel importantíssimo em relação ao crescimento de uma torcida. Eu não me lembro de denegrirem tanto o flamengo na década de 60 ou o Vasco que ficou 12 anos sem títulos ou o coríntians ou o fluminense que foi para a 3ª divisão e voltou pela janela. Em compensação o Botafogo (…)”.
    Santos, Inter e Grêmio e até (me parece) os grandes pernambucanos estão se tocando e tentam pelo menos preservar seus patrimônios (leia-se torcidas) locais.
    Fico me interrogando sobre o que é que falta para as correntes mais sérias da política botafoguense se tocarem disso e partirem para uma política de defesa do clube enquanto instituição histórica e popular.
    Mais uns anos assim e a continuidades de grandes vacilos (tipo cotas menores, erros grosseiros de arbitragem, co-irmandade exagerada, crises de jogadores x técnicos, amareladas bisonhas, contratações escrotas, falta de reforços e etc), mesmo ganhando um estadual aqui e outra taça acolá, tendemos a ficar relegados definitivamente a um patamar intermediário.
    Alguns podem me execrar mas pelo menos o bufão do Eurico peitava em defesa do “seu” Vasco, assim como outros dirigentes.
    Sei q alguns vão até dizer q se começarmos a brigar contra o establishment seremos mais prejudicados ainda.
    Será mesmo? É melhor ser prejudicado e não se contrapor publicamente e deixar esvair o amor-próprio?
    Até hj me dá nojo saber que o Engenhão foi VETADO com laudo da PM e tudo para clássicos nossos e ESTA SEMANA RECEBEU TRÊS JOGOS DECISIVOS, INCLUSIVE UM VASCO X FLA (CONSIDERADO TÃO PERIGOSO) e não vi ninguém batendo nesta contradição esdrúxula … nem jornalistas, nem botafoguenses ilustres. Ou será q depois q voltar o Maraca vamos aceitar q o Engenhão não serve de novo?
    Não agito nenhuma cruzada insana, somente quero a defesa ativa dos interesses do Botafogo …
    • Link postagem no CB http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7516699337890035916&postID=1957042859119233901
    SAN,

    Dirley Santos

  5. Marcelo,

    Todos nós Botafoguenses nos vimos na tua crônica. Também não largo um rádio, mesmo quando vou ao Engenhão. Um amigo diz que sou um torcedor tradicional.
    Hoje, terça-feira, 29.02, cheguei as lágrimas ao ler no jornalão “o grobo – há 50 anos”. Fala do nosso verdadeiro Botafogo, não do atual Botafogo.

    Abs e Sds, Botafoguenses!!!

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