Uma leitura para a semana

A seguir, o grande cronista alvinegro Arthur Dapieve conta, em carta ao vascaíno Aldir Blanc, como se tornou botafoguense e reflete sobre a paixão pelo futebol. Imperdível.

E, diga vocês, como foi que a Estrela Solitária apareceu na sua vida?

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O futebol como recreio

por Arthur Dapieve

(do site do Instituto Moreira Salles, http://www.imb.com.br,em troca de correspondência de Dapieve com o compositor e escritor vascaíno Aldir Blanc)

Grande Guru,

Temos mais isso em comum: um pai vascaíno. Só que o meu abriu mão do direito de escolher o time do filho. Estávamos no Maracanãzinho para ver um circo, lá por 1967 ou 1968. Poderia ser o de Moscou, em plena ditadura? Não sei, mas na minha memória é o de Moscou, sim. Passou o vendedor de bandeirinhas na arquibancada, com a de todos os grandes clubes, e meu pai me disse: “Escolha a bandeira que quiser”. Eu, em eterno flerte com o desastre (copyright by Elvis Costello), hesitei entre a do Botafogo e a do América. Ou seja, entre a esfinge alvinegra, sem letras ou dizeres, e o pavilhão encarnado, de profundas implicações políticas. Decidi-me pela bandeira do Botafogo.

Aos quatro ou cinco anos de idade, eu não tinha a menor ideia de que, naqueles tempos, o time representado por aquela bandeira era o bicampeão da cidade, graças a um timaço com Jairzinho, Gerson, Paulo César, Roberto, Rogério, Zequinha… Nem, muito menos, que pouco antes o Botafogo tinha tido outro timaço bicampeão carioca, com Garrincha, Nilton Santos, Didi, Amarildo, Quarentinha, Zagalo… Ou seja: eu comprei a bandeira com a Estrela Solitária e ganhei de brinde a história gloriosa – e muito sofrimento pelos vinte e um anos seguintes, até o Maurício jogar bola e Leonardo gol adentro, em 1989.

As décadas de 70 e 80 foram duras para os botafoguenses. Como alegria de palhaço é ver o circo pegar fogo, fui muito ao Maracanã ver jogos do América contra aquele outro time, sabe, aquele do qual a gente evita pronunciar o nome. Era uma fase em que o pessoal de Campos Sales ganhava todas, fácil. Ficava aquela massa silenciosa lá na arquibancada à esquerda das cabines de rádio, ficava o punhado de torcedores do América happy few cá na arquibancada à direita das cabines de rádio. Eu descia a rampa gritando “Saanguê! Saaanguê! Saaaanguê!” junto com essa galera de camisa vermelha.

Porém, enquanto eu era criança, não era o meu pai quem me levava ao Maracanã, mas sim um tio paraibano, torcedor do Fluminense e do Náutico. (Por causa disso, tenho grande simpatia pelo Timbu.) A generosidade de me permitir escolher o time que eu quisesse tinha raízes profundas na psiquê do meu pai. Garoto, ele tinha sido uma das 200 mil pessoas traumatizadas no Maracanã pela final da Copa de 1950, contra o Uruguai. Meu avô levara a família, que presenciara o clima de já-ganhou e a inesperada derrota, covardemente debitada na conta do nosso goleiro negro, Barbosa, que, aliás, jogava no Vasco. O Maracanazo levou o meu pai a passar uns bons (ou maus) trinta anos sem pôr os pés no “maior do mundo”. Ele é Vasco, ainda hoje, lá em Belo Horizonte, mas nunca se interessou por futebol como eu e você nos interessamos.

Quem tem uma bela definição de por que esse esporte mexe tão visceralmente com gente como a gente é o Verissimo. Ele diz que o futebol é a única maneira de aos 60 anos se sentir como se tivesse 6 anos de idade. Bingo! Ninguém precisa ir à escola para ter a sensação arrepiante de que sacaneará ou será sacaneado pelos amiguinhos na hora do recreio. Na hora em que a bola rola, meu amigo, é sempre recreio na nossa cabeça.

Não tenho certeza sobre qual era o time do meu avô paterno (o do materno, um português eu sei, era São Cristóvão). Acredito que ele também fosse Vasco, time de imigrantes, mesmo os italianos do Rio. Depois do Maracanazo e da mudança da família para Barbacena, ele tomou uma atitude ainda mais radical que o filho em relação àquilo que o Aldo Rebello deve querer voltar a tratar por ludopédio: apitou algumas partidas de futebol amador pelo interior de Minas Gerais. É preciso odiar profundamente o balípodo (além da própria mãe, uma ex-governanta suíça que não conheci) para ser árbitro.

Outro dia, meu amigo Tárik de Souza me trouxe de Montevidéu um CD duplo, com a narração da final de 1950 numa rádio uruguaia. O sujeito do microfone se surpreende com a vitória da Celeste tanto quanto a multidão. Dá para ficar comovido com a emoção dele. E também dá, juro, para escutar o silêncio no resto do estádio. Sempre achei essa expressão um oxímoro cafona, “escutar o silêncio”, argh, mas ali funciona.

Naquele tempo, você sabe, usávamos camisas brancas com detalhes em azul, logo aposentadas pelos supersticiosos. Fizeram um concurso para escolher a nova roupa da seleção brasileira. Os jornalistas do júri, entre eles o Armando Nogueira, consultaram o DNER para saber qual cor se fazia mais presente à noite, essencial num tempo de iluminações precárias. Souberam, então, que era o amarelo. E combinaram que escolheriam a camisa na qual preponderasse essa cor. O prêmio foi para um jovem gaúcho, xará seu, Aldyr Garcia Schlee, com quem eu mantenho outra correspondência honrosa, embora menos assídua que a nossa. Se hoje a gente fala na “amarelinha”, devemos ao Schlee, que também é escritor. E dos bons.

***

Aproveite a caixa de comentários e conte: como é que você se tornou botafoguense?

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8 Respostas para “Uma leitura para a semana

  1. Aos 5 anos. 1989. Estava na casa do meu avô paterno e ele aos prantos no fim do jogo se ajoelha, fica na minha altura e diz: Quando perguntarem seu time, diga: Sou Botafogo. Simples assim. De lá pra cá repito essa frase todo santo dia, várias vezes! Sou Botafogo!

  2. Nunca “tive time”, apesar de ser filha e neta de vascaínos por ambos os lados da família.
    Mas aí, um dia, o Botafogo estava a uma derrota da série B. Inexplicavelmente, fiquei triste com o rebaixamento e curiosa em acompanhar (ainda mais ou menos) os jogos. Fiquei tensa no dia do jogo contra o Palmeiras, queria que o Botafogo voltasse à série A – sei lá porque. Na hora do jogo, por acaso, passei em frente ao Caio Martins e ouvi a torcida cantando. Foi a senha.

  3. Como me tornei torcedor do Botafogo? Como assim? Não entendi. Não me tornei: sou, sempre fui. A ida com meu pai a General Severiano, em 1967, foi apenas uma confirmação, uma espécie de ritual. Sempre fui Botafogo (sabe aquela história de ser escolhido?).
    abs.

    (Belo texto do Dapieve)

  4. Então, (eu não sei como me tornei Botafoguense, NÃO ME RECORDO) bem, a história é a seguinte:
    “eu nasci num lar onde todos da minha são flamenguistas, então fiquei sabendo q uma certa vez meu avô pediu q uma tia minha fosse comprar um chinelinho do flamengo para mim, (isso eu tinha uns 3 anos de idade), MISTERIOSAMENTE minha tia me volta com um chinelo do Botafogo, eu creio q as pessoas deviam ficar enchendo o meu saco falando: “iii, tira esse chinelo feio vou te dar um do flamengo, e eu com personalidade forte só fazia aumentar minha paixão pelo Bota. Desde então eu jamais cogitei em torcer para outro time… mesmo com toda pressão sofrida pelos tios, tias, avô etc… haha, hj eu sei pq sou Botafoguense. PORQUE, PARA NÓS, EXISTE O BOTAFOGO. O RESTO É APENAS FUTEBOL… saudações…

  5. Legal foi a entrevista do Túlio (não o Maravilha, o outro craque que agora atua no Figueira)

    “Quem ouve Túlio falando do Botafogo tem a certeza de que se trata de um alvinegro de berço, mas isso não procede. Quando pequeno, o coração dele até “batia em preto e branco”, mas por outro clube.

    “- Era santista, mas era santista mesmo (risos). Desde que me tornei profissional, mesmo já jogando pelo Goiás, meu maior sonho não era nem jogar pela Seleção e sim pelo Santos. Depois que vesti a camisa do Botafogo, isso acabou completamente. Inclusive, quando estava jogando pelo Botafogo, recebi uma sondagem do Santos e não quis ir. Sou botafoguense – garantiu o jogador, pai dos botafoguenses Thaís, 7 anos, e Vitor, de 4 anos.”

    http://www.botafoguenses.com.br/tulio_brinca_se_vencer_o_bota_depois_uso_a_camisa_por_baixo_contra_o_fla-noticias_do_botafogo-ispyp-3831.htm

  6. Este clube é um sentimento que gruda mesmo, a gente fica aborrecido, tem raiva, mas, amanhã é dia de torcer feito louco por uma vitória sobre o Figueirense.
    Que magia é essa ?

    SB

  7. Meu pai é o único botafoguense de uma família de tricolores, flamenguistas e vascainos, apesar de não lembrar de vê-lo assistir aos jogos ou até torcer para o Glorioso. Fui apresentado ao esculdo da estrela solitária na única vez que houve manifestação de torcedor na minha casa, e foi protagonizada pela minha mãe, acho que no ano de 1978, quando eu tinha apenas 5 anos, ela comprou vários suvinis do Botafogo para comemorar o dia dos pais daquele ano: caneca, caneta, chaveiro, toalha, etc., juntamente de uma camisa regata branca com o escudo no centro. _também para quem tinha na época seis filhos. Dali em diante tornei-me torcedor do Botafogo. Eu que tive que pedir uma camisa, “porque se fosse depender dele”. Quando ele falava do nosso time era porque eu perguntava, e ele só lembrava da época de Garrincha, Nilton Santos, Zagalo, Gerson, Quarentinha, Jaizinho, Roberto, PC Caju e muitos outros. _ sera que essa é a causa dele torcedor pro Fogão?! Já eu na minha formação de torcedor peguei a pior fase do Fogão e a melhor dos nossos rivais, principalmente a do coisa ruim que tinha um tal de galinho de Quintino que só faltava chover, tempos negros – quer dizer rubronegro. Por isso que me considero mais torcedor que os outros dorcedores. O torcedor botafoguense é diferente dos outros torcedores. Só uma ressalva, apesar de ficar um bom tempo sem título nos tivemos grades jogadores e assistimos grandes jogos do nosso Glorioso ( quem não lembra daquele jogo épico que meu grande ídolo Mendonça deixou o Júnior, lateral da seleção, torto e meteu um golaco ). _ Ah já ia esquecendo-me eu ensinei meu pai a torcer juntamente do meu irmão, o sétimo e ultimo filho. Hoje na família tem mais de 20 torcedores problemáticos, porque enquanto os outros são doentes nos somos malucos. SAUDAÇÕES ALVINEGRAS 🙂

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