Zagallo: A homenagem e o incômodo

Muitas comemorações e homenagens nessa terça-feira pelos 80 anos do Zagallo, indiscutivelmente o maior vencedor da história do futebol brasileiro.

No Botafogo, Mario Jorge Lobo foi campeão como jogador e como técnico. Merece o nosso respeito – mas, me permitam, acho que havia outros ídolos a serem eternizados em estátuas no Engenhão antes do Velho Lobo.

Aliás, para ser absolutamente franco, não incluo Zagallo entre os meus ídolos alvinegros. Admiro sua história vencedora no clube, mas algumas atitudes pessoais e sua aberta simpatia-quase-amor pelo nosso grande rival me impedem de cultuá-lo.

Reconheço também que a diretoria do Botafogo foi, mais uma vez, muito sagaz do ponto de vista do marketing ao levar o aniversariante para dar o pontapé inicial do clássico de domingo.  Ganhou mídia (a imagem dos dois cultuadores do número 13 foi parar até no site da Fifa), despertou simpatia, fez muita gente boa dizer que o “Botafogo é o clube brasileiro que melhor trata os seus ídolos”, tudo certo.

Só que tem uma coisinha me incomodando desde o domingo – e que, na euforia pós-goleada, preferi deixar quieto até agora.

E nem me refiro ao fato de, na minha ordem de grandeza, não achar certo  que o Zagallo ganhe estátua antes do Didi, Paulo Cesar Caju, Heleno de Freitas, Mendonça, Maurício e Túlio Maravilha.  Ok, a ideia é homenageá-lo em vida. Mas essa ordem é perfeitamente discutível e, entendo, os títulos do Zagallo com a camisa ou no banco do Glorioso são um poderoso argumento.

Mas o que me incomoda, de verdade, é a diretoria se apropriar inteiramente de uma ação (a confecção e instalação de estátuas do lado de fora do Engenhão)  que nasceu da TORCIDA e foi financiada pela TORCIDA. Muitos, inclusive, que não tinham dinheiro para comprar uma cota ajudavam como podiam, às vezes dividindo uma cota com outros alvinegros. Tudo ocorreu de uma forma muito organizada, espontânea, desinteressada – o único interesse era homenagear a história do Botafogo.

Esses torcedores agora pensaremos duas vezes antes de ajudar a fazer as próximas estátuas: se a diretoria tem dinheiro para confeccioná-las e passa a usar a escolha dos homenageados de acordo com a conveniência do marketing, a inciativa perde a espontaneidade. Essa apropriação de um feito da torcida me soou desrespeitosa e, como no episódio da pintura das cadeiras vermelhas do estádio (as mesmas que, por uma questão de estatuto, não poderiam ser pintadas de preto e branco, teriam que ficar azuis até o fim dos tempos, segundo dizia a diretoria), mostra que muitas decisões da diretoria são tomadas na base da conveniência – e não da coerência.

Fazer cortesia com o chapéu alheio, e sem ao menos dar o crédito merecido a quem teve a iniciativa e a fez existir, não dá.

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7 Respostas para “Zagallo: A homenagem e o incômodo

  1. Perfeito!

    Quanto ao Zagallo, especificamente, está aí um dos maiores sortudos do futebol mundial. No mundo do ‘se’, fico pensando como seria a história do Zagallo, se o Pepe não tivesse se machucado em 58 e 62.

    Saudações botafoguenses!

  2. “Torço pelo Botafogo e flamengo, mas torço mais pela Seleção Brasileira”.
    Caro Marcelo, esta frase do Zagallo não é uma frase qualquer. Esta frase representa, de maneira ampla e profunda, o mais completo perfil do Zagallo. O time do Zagallo se chama Zagallo & Zagallo.
    A estátua do Zagallo não poderá ficar ao lado da estátua do Nilton Santos e Jairzinho, pois assim sendo, estaria diminuindo a INTENSIDADE DO ESPAÇO SAGRADO.
    Saudações Gloriosas!
    Cléto Martins

  3. Concordo absolutamente que está sendo invertida uma ordem fundamental de prioridade e importância com a decisão pela homenagem ao Zallargo (vai ter sorte assim na Conchinchina…).
    E, aliás, também divido com o Pereira a opinião sobre a idolatria ao Lobo como símbolo alvinegro, visto que ele é cria do ‘lado sombrio da força’, do ‘Império do Mal’ e já bateu muito no peito ao revelar aos ventos sua paixonite pelo rubronegro.
    De fato Túlio e Maurício (não necessariamente nessa ordem), tanto quanto muitos outros ídolos, além dos já citados no artigo, merecem sua estátua pedestre no panteão do BFR muito antes do Zagallinho de Quintino.
    Só não entendi bem uma coisa: – Ô, Cléto! O que é ‘torcer para Botafogo e flamengo’? E ‘torcer mais pela Seleção Brasileira’ (que pelo Fogão)?
    Isso mais parece coisa do Zagallo…

  4. Conquistas Botafoguenses de 58 e 62 têm versão na íntegra na web; assista pela 1ª vez

    http://oglobo.globo.com/blogs/planetaquerola/posts/2011/08/10/os-artistas-brasileiros-na-integra-397738.asp

    Saudações Gloriosas!
    Cléto Martins

  5. É, a paixão dele pela mulambada causou-lhe desmaio, jogada de marketing é fato. Mas arranje um lugar separado daqueles que lá estão, longe para não ofuscar os verdadeiros merecedores. Torcida botafoguense criadora de estátuas saberá colocar em seu devido lugar.

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