Jefferson: O ídolo invisível

Não lembro de uma frase marcante do Jefferson.

Não lembro de o Jefferson ser convidado para participar do “Bem, Amigos” pra tocar violão ou contar causos divertidos, para animar os jornalistas e o telespectador.

Na verdade, tenho que fazer esforço para lembrar da voz do Jefferson – às vezes, tenho a impressão que ele prefere o silêncio. Falar, só o essencial.

Tudo isso para dizer que Jefferson me parece um jogador à moda antiga, daqueles que apareciam no Canal 100: como ele não tem twitter nem facebook, não sei se o goleiro alvinegro vai jantar ou se acabou de almoçar. Ele também não avisa que está com sono exalando nem que está muito cansado porque acabou de treinar, muito menos que ama as suas fãs.

Jefferson entra em campo, faz o seu serviço e vai embora. Se alguém quiser escutá-lo depois do trabalho, ele fala. Caso contrário, não brigará pelos holofotes.

No cenário nacional, Jefferson tem pouco, quase nenhum destaque. Não tem a adesão irrestrita da mídia de seu estado como possuem Fábio do Cruzeiro e Victor do Grêmio, não tem a marra midiática de Fernando Henrique ou Fábio Costa, não tem a habilidade de ser simpático profissional como Rogério Ceni, nem o carisma bronco do Marcos do Palmeiras. Na história recente alvinegra, Jefferson também está em desvantagem do ponto de vista da atratividade para a mídia e para os torcedores: não desperta o entusiasmo das meninas como o playboy Julio Cesar nem conquista pela garra gringa como o Castillo.

Só que, há um bom tempo, Jefferson é mais goleiro do que todos os citados. Inclusive do que o titular da Seleção Brasileira, Julio Cesar, aquele que convida Galvão Bueno para jantar e faz de seu casamento um livro aberto nas páginas dedicadas às celebridades.

Alguém imagina o Jefferson e a sra.Jefferson posando para a Caras? Nunca estarão. Porque nunca serão convidados. Sequer cogitados.

Tudo isso para dizer que Jefferson só tem duas coisas ao seu favor: o seu trabalho e o seu clube. E, temos que ser sinceros, o Botafogo pouco fez para projetar o Jefferson desde que ele voltou da Europa. Não conquistou títulos expressivos como fez o São Paulo de Rogério Ceni. Pior: em vez de colocá-lo em vitrines glamurosas como jogos decisivos da Libertadores (o trampolim espertamente utilizado pelo frangueiro Fernando Henrique nos tempos grenás), fez o seu goleiro ser alvejado incessantemente por jogadores de times como Santa Cruz e  River Plate de Sergipe. Claro: com isso ele teve mais trabalho, mas sempre em situações incômodas, em partidas de pouca relevância nacional e nenhum interesse internacional.

Nesse ano, a performance alvinegra não permitiu ao goleiro usufruir nem da única vitrine positiva conquistada no ano passado, a decisão do Estadual.

É dura a vida de goleiro do Botafogo.

Por isso, é necessário lembrar, a primeira convocação do Jefferson para a Seleção Brasileira foi tratada com estranheza, ceticismo e até ironia pela imprensa nacional – mesmo por boa parte da imprensa carioca.

Torcedores de outros estados, então, dão risadas com o nome do nosso goleiro – criticaram Mano Menezes e disseram que havia outros melhores na posição, citando o fraquíssimo Júlio Cesar, do Corinthians.

Só nós, alvinegros, é que não nos surpreendemos com a convocação – porque sabíamos que Jefferson tinha conseguido o mais difícil em sua função: transformar o milagre em rotina.

Entre 2009 e 2010, Jefferson teve uma sequência de intervenções decisivas que poucos goleiros obtiveram no futebol nacional. Por culpa de uma defesa quase sempre exposta e de uma estratégia de jogo baseada na covardia ofensiva, ele era obrigado a se virar para garantir o resultado. E, vamos lá, conseguiu reter pontos preciosos em 90% das partidas que participou.

Não tenho dúvidas em apontar o Jefferson e o Jobson como os responsáveis pela manutenção do Botafogo na Série A em 2009.

Pois bem: é esse Jefferson que, novamente, vai à Seleção Brasileira.Agora oficialmente na condição de terceiro goleiro, disputará (ou melhor, assistirá) a Copa América.

Ele ganha pontos preciosos para sua carreira. E quem perde somos nós, alvinegros, justamente os que mais valorizam o trabalho do Jefferson. Porque, independente da atual forma do Renan, nós sabemos que o reserva se esforçará ao máximo, mas pouco poderá fazer para atingir o mesmo nível do goleiro titular.

Depois de uma fase terrível de JChester-Max-MarcosLeandro-Castillo, nós conhecemos o reverso da medalha. E aí ficamos mal acostumados. A cada jogo que assistimos na tevê que não envolve o nosso time, a gente pensa após um gol: “Essa o Jefferson pegava”. E a gente não acha; a gente tem certeza. Porque a gente confia em que fez por merecer, seguidas e seguidas vezes, a nossa confiança.

Boa viagem, Jefferson.Você merece a convocação: pela humildade, pela postura profissional e, acima de tudo isso, porque você é um baita goleiro. O melhor que eu já vi jogar no meu time nos últimos dez anos.

E que a sorte esteja ao lado do Renan. Ele vai precisar – e nós também.

Porque todo time começa com um grande goleiro. E, quando começamos a encontrar o esboço de possibilidade de um grande time (Maicosuel – Elkeson – Renato), perdemos o melhor dos goleiros.

Não é fácil a vida do torcedor botafoguense.

Mas, de vez em quando, vem a recompensa.

A mais gloriosa das recompensas.

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5 Respostas para “Jefferson: O ídolo invisível

  1. Essa for a postagem que mais me identifiquei nesse blog, parabéns

    Inclusive na parte do : “Essa o Jefferson pegava…”

    abraço!

  2. Me lembrou o lendário Oswaldo “baliza” – o melhor de todos e de Manga, o mais polêmico. Foram goleiros de seleção e honraram a camisa que naquela época sempre foi a número um.
    Parabéns, Marcelo, pelo belo texto , parabéns a Jefferson pela esplêndida forma que atravessa e, agora, acredito na seleção que, finalmente, voltou a ter pelo menos um jogador do Botafogo – o que já é meio caminho andado para ganhar o título…

  3. Marcelo, uma verdadeira homenagem a um dos mais sérios, importantes e competentes profissionais do atual futebol brasileiro. O brilhantismo do Jefferson eh que ele brilha em campo e não fora.

  4. Que pena que JOBSON foi emprestado ao Bahia, ele e JEFFERSON salvaram o FOGÃO várias vezes. Neste elenco jovem e jogando para frente, com ELKESSON, MAIC e ALEX, só nos daria alegria neste Brasileiro.

    VIVA JOBSON, fora Loco Abreu.

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