Como me tornei Botafogo – Luis F.Verissimo

 

Publicado na edição desse domingo, 02/01/11, de O Globo:
O ALEMÃO
Cheguei ao Botafogo via Internacional. O Pirilo tinha vindo do Sul para jogar no Botafogo. Depois veio o Ávila, centro-médio (naquele tempo ainda se dizia centro-médio), um negro forte, peça importante da grande máquina de jogar futebol que era o Internacional da década de 40. Tão grande que
teve três jogadores convocados para a seleção brasileira de 50: Nena, Tesourinha e Adãozinho. Nenhum dos três chegou a jogar na fatídica Copa daquele ano, o que para a minha mente juvenil explicou nosso fracasso. Há pouco tempo morreu o  Nena e o noticiário disse que ele era o último remanescente  daquele Inter mítico. Deduzi que o Ávila também já tinha morrido. 

Depois do Ávila, seu substituto no Inter, o Ruarinho, também veio para o Botafogo, o que só reforçou minha decisão de ser botafoguense desde recém-nascido. Naquele tempo a gente tinha time em toda parte. Nunca saberei o que me levou a “ser” Tottenham Hotspurs na Inglaterra, Racing (hoje Paris Saint-Germain) na França, Colo Colo no Chile ou Atlético Mineiro em Belo Horizonte, mas eram os meus times, entre muitos outros (eu vibrava com as vitorias o Dínamo na Rússia embora nem soubesse a cor da sua camiseta). Nenhum, no entanto, era o meu segundo time com a intensidade do Botafogo. Quando fui morar no Rio não perdia jogo de Garrincha, Quarentinha e cia. no Maracanã.
E tudo começou com o Ávila.
Mas eu já não morava no Rio quando veio outro centro-médio do Sul jogar no Botafogo. Este era um loiro ainda maior do que o Ávila chamado Elton. Vinha do Grêmio, onde tinha se transformado numa espécie de símbolo do futebol duro, feio e efetivo imposto pelo treinador Foguinho, um pioneiro do outrora chamado “futebol força” pouco reconhecido fora do seu estado. O Elton foi um dos protótipos do “cabeça de área”, nome depois misericordiosamente mudado para “volante de contenção”. Não se esperasse do alemão Elton nenhuma jogada de brilho. Não se poderia nem descrevê-lo como um Dunga antes do tempo, porque não tinha o passe longo do Dunga. Seu talento era de desarmador. O que não impedia que, vez que outra, aparecesse sorrateiramente na frente e até marcasse seus gols.

Não me lembro como o Elton se deu no Botafogo. Era, de certa forma, a antítese de tudo que os cariocas gostam no futebol. Quando saiu do Botafogo fez o inverso dos meus ídolos do passado – foi jogar no Inter. Onde também acabou sendo um símbolo, no caso de uma transformação no modo de jogar do time, que na época era constantemente derrotado pelo futebol mais forte e objetivo do Grêmio moldado pelo Foguinho. Foi o precursor do Inter que, anos mais tarde, jogando sério como ele, foi oito vezes seguidas campeão do estado e três vezes campeão brasileiro.

O Elton também morreu, há dias. Não deve ter lhe passado pela cabeça que foi um nome histórico. Mas pelo menos na minha história sentimental, ele foi um herói.

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E aí, algum alvinegro lembra do Elton?
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4 Respostas para “Como me tornei Botafogo – Luis F.Verissimo

  1. Amigos,
    Nunca ouvi falar deste Elton. Desconfio que este eh o destino dos “briosos” e “racudos” sem classe. Mesmo lembrado pelo mestre Verissimo, ainda assim ser sempre um desconhecido.
    Este texto me fez lembrar de como me tornei botafoguense.
    Meu pai era Fluminense, dentre outros motivos porque treinou o time de voley do tricolor. Minha mae, idem por motivos obvios. E eu, menino recebi um uniforme completo do Flamengo que era a sensacao do quarto centenario do Rio.
    So que o meu tio que me deu o uniforme, nao gostava de futebol e o comprou por mera influencia da imprensa que na busca de audiencia sempre beneficiou o rubro negro.
    Acontece que um tio (na verdade,casado com minha tia) que adorava futebol e me convidava a ir no estadio com ele, era Botafogo doente. Iamos ao estadio em J. Pessoa, de onibus, hora ouvindo a radio local, hora ouvindo a radio Globo e acompanhando o Botafogo FR.
    A casa jogo, me empolgava mais com as narracoes de Waldir Amaral e Jorge Cury e comentarios de Joao Saldanha.
    Com o time de 67 e 68, era fatal a atracao e nao deu outra.
    Nao me lembro do Elton, mas nunca esquecerei do Jairzinho e do PC Caju.
    Viu! Craque agente nao esquece. Certo Sr. Pereira?
    E. Sales

  2. Claro que lembro do Louro Elton – Cabeça de Area – Voluntarioso e que realmente jogava para um time.
    Lembro ainda que no meu time de botão tinha: Elton, Amoroso, Dimas, Manga, Rildo, Pampolini, Leonidas, Valtencir, Braulio (só para lembrar os menos conhecidos pela galera hoje) e outros mais.
    Saudades deste tempo, nós eramos felizes e sabiamos disto.
    Geraldo

  3. Não lembro do Elton,mas,adorei o texto e sou botafoguense desde q nasci,por causa do meu pai e avo q tbm ja nasceram botafoguenses 🙂

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