De Garrincha a Jobson: Nossa arte é o drible

Um longo post, que começa com uma breve viagem no tempo.

No mês passado, um dia depois de Jobson ser revoltantemente expulso nos minutos finais do empate contra o Palmeiras após driblar Edinho e ser violentamente advertido por Marcos Assunção, eu estive no Pacaembu.

Lá do alto, pude olhar não só o local do drible mas também a trave onde Túlio Maravilha fez o gol que garantiu nosso título em 1995.

Mas a história do Botafogo no Pacaembu não está apenas dentro do gramado.

O motivo da minha visita ao estádio foi conhecer o Museu do Futebol. E foi uma alegria imensa comprovar que a história do futebol brasileiro do século 20 passa pela história do Botafogo. Lá estavam Nilton Santos, Didi, Jairzinho, o próprio Túlio Maravilha. Lá estavam também diversos recordes e fatos que tem o Glorioso como destaque. Os amigos mineiros e gaúchos que me perdoem, mas os atletas dos times de seus estados  – reunidos – não ocupam nem metade do espaço reservado às conquistas de jogadores alvinegros. Nós estamos no primeiro time dos protagonistas.

Quase ao final do passeio, a maior emoção. Lá estava, em local exclusivo, um certo Garrincha: Vídeos, textos (Armando Nogueira, claro) e fotos num totem só pra ele. Para se ter ideia do destaque dado ao Mané, apenas um outro jogador brasileiro ganhou tal honraria de ter um espaço diferenciado – o nome dele é Edson Arantes do Nascimento. 

Em boa parte dos vídeos e fotos do Garrincha, ele aparece com a camisa do Botafogo em momentos gloriosos, arrepiantes, inesquecíveis até para aqueles que, como eu, não tiveram o imenso prazer de vê-los ao vivo.

E sabe o que me chamou mais a atenção e é o motivo desse post?

Foi a minha alegria ao rever os dribles do Garrincha. Mais até do que os gols que ele marcou. Pois entendi, naquele momento, a essência mítica do Botafogo.

O Botafogo é o drible. O Botafogo é a arte do drible. O Botafogo é o talento necessário para exercer, como nenhum outro, a arte do drible. Aquele momento imprevisível, em que o talento supera a mediocridade.

E torcer pelo Botafogo é sonhar, a cada jogo, com a retomada dessa tradição gloriosa. Porque ela faz parte do DNA alvinegro.

Por isso, percebi lá no Museu do Futebol, o porquê de a gente ter desejado tanto a volta do Maicosuel. Porque foi ele que, mesmo sem nos dar o título em 2009, nos deu de novo – ao menos por algum instante – a superioridade moral sobre o nosso maior rival. Fez, novamente, a arte triunfar sobre a barbárie.

E foi por isso também que, na segunda metade de 2009, encontramos no Jobson um derradeiro reencontro com a magia do drible num período tão sofrido. Pois foi Jobson, contra Goiás, São Paulo e Palmeiras, o único que teve coragem para partir pra cima dos adversários. Destemido, irreverente, até mesmo inconsequente – como fazia um certo Mané. E foi assim que ele (e Jefferson) nos salvou do rebaixamento.

Chega 2010 e Joel monta um Botafogo pragmático, lutador, brioso. E limitadíssimo tecnicamente. Mesmo assim, conseguimos o título que tanto perseguimos – e em cima deles, os usurpadores da conquista de 2007, o ano que, para a história recente do Botafogo, equivale ao Brasil de 1982: encantamos, mas não ganhamos.

Para a conquista de 2010, contudo, dois pontos fundamentais. Jefferson, novamente, devolvendo a nossa fé em goleiros, tão combalida nos últimos anos. E um uruguaio que lavou a nossa alma por retomar, mesmo sem saber de nossa história, a essência do DNA alvinegro.

Sim, porque o que o Loco Abreu fez na final da Taça Rio foi superar o até então imbatível goleiro do rival graças a um artifício. Graças a um lance de inteligência. Graças a uma demonstração de talento. Graças a um… drible.

No pênalti que converteu com a cavadinha, o Loco driblou as expectativas de todo mundo – inclusive as do Bruno. Como fazia Garrincha com os seus Joões, como fazia Jairzinho, como fez Mendonça em cima do Junior, como fez Maicosuel com Juanita, como fez Jobson e seus Joões.

Ali, com o Loco, a gente gritou de alegria porque sabia que tinha sido mais do que uma cobrança bem-sucedida. Tinha sido também uma demonstração de superioridade na base da inteligência, da malícia, do que há de melhor no futebol: a imprevisibilidade.

Tudo isso para dizer que, pensando friamente, as duas últimas vitórias do Botafogo não foram além da obrigação. Derrotou o Vitória, cheio de reservas no Barradão, e superou, dentro de casa, um Atlético-MG inteiramente desarrumado e disperso. Mas o que enche a torcida de esperança é que os seis pontos conquistados vieram principalmente por conta da volta do talento de dois caras que têm o dom de fazer arte com os pés.

Maicosuel, o maior destaque do primeiro semestre de 2009.

Jobson, o maior destaque do segundo semestre de 2009.

Os dois se unem a Loco Abreu, o maior destaque do primeiro semestre de 2010.

E, claro, a Jefferson, o maior destaque dos últimos doze meses.

Os quatro estão no mesmo time, ao menos até o fim de 2010. No nosso time. E, mais Herrera, Somália, Caio, Edno, até Cajá, todos juntos nos dão o direito de sonhar com novos lances surpreendentes, novas alegrias por conta de demonstrações de talento, novos abraços entre pais e filhos alvinegros, novos sorrisos cúmplices a cada novo drible.

Mais do que um improvável título, é isso o que espero do Botafogo até o fim do ano.

Desejo novos motivos para sorrir. E, assim, lembrar do que está na essência do nosso DNA: ser herói a cada jogo, mas à nossa maneira – já imortalizada na história guardada no Pacaembu, mas que pode e deve ser cultivada no Engenhão.

 Não quero um time de guerreiros; já o tivemos (e foram brilhantes!) no Carioca 2010. Agora quero um time de arteiros.

 

Quero ver o melhor do futebol. Quero ver o melhor do Botafogo.

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9 Respostas para “De Garrincha a Jobson: Nossa arte é o drible

  1. Botafogo, teu nome é destino, a arte do imprevisível.

  2. Maravilha! Belo texto! Belas palavras! Belas imagens!

    Disse lá no meu blog, no texto sobre a vitória contra o Galo, que a simples presença do Maicosuel já seria capaz de modificar o time e atrair a torcida! A linda vitória e os 27 mil alvinegros não me deixaram mentir.

    Agora posso dizer que a simples presença do Maicosuel é capaz de inspirar os blogueiros alvinegros!!!

    Parabéns! Agora me dá lincença que eu vou ver o drible do Mago no Juanita outra vez! Hehehehehe.

  3. Sabe o que mais me encanta nisso tudo? É saber que podem se passar séculos, mas o nosso rol de craques, só vai aumentando.
    É certo que Maicosuel, Jobson, Abreu e Jefferson tem muito o que render juntos ainda, o que é mais um motivo para que esse encanto aumente.
    O Botafogo sempre foi uma raridade. Ser botafoguense também o é. E quando se veste o manto Glorioso é que vemos a transformação. A vontade de jogar e de provar o porquê de estarem ali é superior. O que seria do futebol sem o Botafogo? Sem tantos craques que não só defenderam o Botafogo mas também a Seleção? Não há como imaginar.
    É um orgulho torcer para um time tão peculiar e uma torcida sem igual!
    Parabéns pelo texto, ótimo!
    Abraços

  4. Parabéns pelo post! O nosso passado é glorioso, assim como nosso time sempre será.

  5. Marcelo,
    Lendo esse belíssimo texto, mesmo no trabalho, as lágrimas brotaram. Só esse DNA para entender tudo isso.

    Parabéns!

    Abs e Sds, Botafoguenses!!!

  6. Marcelo, bela crônica de autêntico botafoguense, ao melhor estilo de Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Sandro Moreira, Armando Nogueira – estes sempre serão os melhores, até porque além de excelentes cronistas, eram alvinegros de mentes e de coração!

  7. opa, gantida a minha presenca no proximo jogo do Botafogo… vou com um amigo e com a galera da Botachopp… abraco a todos!!!

  8. Marcelo,
    Parabéns pela maravilha de texto.
    Queremos sim o Glorioso com arte.
    E.Sales

  9. Nossa, belíssimo texto!
    Fiquei emocionada e ainda mais orgulhosa por carregar essa estrela solitária no peito!
    Obrigada pelas belíssimas palavras!

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