A importância do título alvinegro – Fala, Molica!

Abaixo, compartilho texto imperdível do blog do jornalista Fernando Molica. Com exceção da idade (tenho 10 a menos que o autor), assino embaixo de todo o conteúdo e aplaudo um texto tão sensatamente alvinegro.

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Por que o Botafogo tem que ganhar o campeonato

Fernando Molica

Desde pequeno – tenho 49 anos – me acostumei com a ideia de que havia quatro grandes clubes de futebol no Rio: Botafogo, Flamengo, Vasco e Fluminense. Bangu e América tentavam correr por fora, beliscavam vitórias e, de vez em quando, um título. Lembro que, nos chamados clássicos, a arquibancada era dividida. Metade pra cá, outra metade pra lá. Isso, mesmo que jogo fosse do Flamengo contra o Botafogo ou o Fluminense. A divisão se refletia na sociedade, como mostra o ótimo livro da Cláudia Mattos, o Cem anos de paixão.

Ao longo dos anos – 40 anos, muito tempo – o panorama mudou. O Botafogo passou duas décadas sem títulos, o Vasco colecionou vices campeonatos e conviveu com uma ditadura interna, o Fluminense montou sua Máquina (Rivelino, Paulo César, Edinho) e não conseguiu manter uma certa regularidade.

O Flamengo, lá pela metade dos anos 70, teve a sorte e a competência de montar um timaço, aquele de Zico, Júnior, Leandro, Andrade, Adílio, Carpegiani. O rubro-negro ficou na moda, passou também a ser cultivado num universo mais sofisticado, foi para as colunas sociais, seu baile de carnaval virou referência chique na cidade. O clube sempre idenficado com os mais pobres virou também o clube dos ricos, desbancou o Fluminese. Grosso modo: o Fluminense virou o dinheiro velho, a nobreza decadente; o Flamengo passou a ser o novo e poderoso rico, temido e admirado – como aqueles tais yuppies, agressivos nos negócios, na luta pelo poder.

Time da Zona Norte, ligado à colônia portuguesa, historicamente sacaneado pelos clubes da Zona Sul (vale ler O negro no futebol brasileiro, do Mário Filho), o Vasco tentou resistir. Afinal, tinha a segunda maior torcida da cidade. Como tinha também o segundo melhor time, eternizou-se na condição de vice. Pra piorar, seu dirigente máximo tratou de fomentar a rivalidade com o Flamengo, a estimular a violência, a agressividade. Juntas, fome, vontade de comer e a própria violência na cidade geraram uma situação quase insuportável, a ponto de impedir que torcidas rivais subam a mesma rampa do Maraca.

Sem ter nada a ver com a incompetência dos adversários, o Flamengo cresceu e conquistou uma hegemonia que se tornou desastrosa para o futebol do Rio. Não defendo a teoria da conspiração, mas sustento que, no futebol como na vida, o mundo gosta de sorrir para os mais fortes. Na prática, os juízes cariocas tendem a favorecer o Flamengo. São subornados? Acho que não, apenas não são bobos.

Para não parecer perseguição com o Flamengo. Em 2006, o Botafogo foi escandalosamente favorecido quando disputava a Taça Guanabara com o América. O juiz deixou de marcar um pênalti claro contra o alvinegro. Tinha sido comprado? Não creio. Apenas o sujeito olhou para as arquibancadas, viu que havia 90% de torcedores do Botafogo. E achou melhor não complicar a festa da maioria. No nível internacional, a seleção brasileira conta com uma histórica simpatia dos árbitros.

Ao longo dos anos, a torcida do Flamengo passou a ir mais aos estádios. As histórias de violência – principalmente nos jogos contra o Vasco – afastaram torcedores de outros times. Criou-se o discutível mito de que os rubro-negros são mais violentos. São, sim, maioria. E isso assusta. Na prática, o sujeito comum, não organizado, pensa duas vezes antes de ir ao Maracanã em dia de jogo contra o Flamengo. As arquibancadas deixaram de ser divididas.

Na imprensa, a geração Zico chegou ao poder, desbancou a antiga tradição de jornalistas esportivos alvinegros (João Saldanha, Oldemário Toguinhó, Sandro Moreyra). Os caras mandam nas redações – e é fácil conferir o resultado disso nas páginas.

Dono da maior torcida, da maior quantidade de títulos, simpático à imprensa, o Flamengo também papou a maior parte das verbas publicitárias, reforçou sua identificação com o Rio. A cidade, no seu aspecto esportivo, era vista como um mosaico, fruto da divisão/integração das quatro grandes torcidas. Hoje, o Rio é identificado com o vermelho e o preto.

Por sorte, tanto poder gera divisões. A roubalheira no Flamengo (nenhuma acusação aos atuais dirigentes, apenas uma consideração, digamos, histórica) impede que o clube se torne uma potência absurda (que bom!). Os torcedores são tantos que acabam brigando entre si. Mas tanto poder também gera intolerância, desprezo pelos diferentes, por quem segue outra cartilha, prefere outras cores. Tanto poder vira semente do autoritarismo, de um tipo de intolerância quase fascista. Não estou dizendo, claro, que rubro-negros tendem ao fascismo. Afirmo que hegemonias – tenham as cores que tiverem – volta e meia descambam para comportamentos autoritários, intolerantes, fascistóides.

Com medo de tanto poder, juízes tendem sim a, na dúvida, apitar de forma favorável ao Flamengo. Aconteceu em 2007, na final do Carioca. O gol do Dodô em 2007 – que decidiria o campeonato a nosso favor – não teria sido anulado (e ele não teria sido expulso) se seu uniforme fosse rubro-negro. Aconteceu domingo passado, naquele escandaloso pênalti não marcado a favor do Vasco.

Enfim, a vitória do Botafogo é necessária para arejar o futebol carioca, para acabar com a lógica do partido único, para afastar qualquer possibilidade fascistóide. A vitória do Botafogo é essencial para a democracia. E, claro, a vitória do Botafogo é essencial para mim.

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Sensacional, não?

Se quiser deixar um comentário para o Molica, vá lá no

http://www.fernandomolica.com.br

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4 Respostas para “A importância do título alvinegro – Fala, Molica!

  1. Excelente!
    Faltou apenas citar as loucas administrações que dominaram o Botafogo e que quase determinaram a extinção do Glorioso.
    E.Sales

  2. Por aqui, em João Pessoa, já andam dizendo que o fla vai ganhar o segundo turno, porque assim o desejam a Rede Globo, – porque se o Botafogo for campeão direto a TV vai ficar com dois domingos sem futebol no Rio – e (pasmem!) até alguns dirigentes alvinegros, com o olho grande nas rendas de um milhão nas duas partidas finais do campeonato.
    Não quero crer que isso seja verdadeiro, mas como no futebol de hoje (bem diferente dos tempos de Nilton Santos, Garrincha, Didi e Zagalo) tudo é possível, é bom botar as barbas de molho…

  3. Sensacional. Sempre defendi o conteúdo deste texto do Fernando Molica, sem contudo ter a capacidade de sintetizar com tanta propriedade e conhecimento esta verdade que sufoca o Rio, digo, o futebol do Rio, ou melhor, a paixão do Rio.

  4. Realmente sensacional! Sempre achei que era impossível ser tão contundente e esclarecedor com tamanha serenidade, ao comentar os desmandos rubronegros no futebol fluminense das últimas décadas. Não, não é.
    Parabéns, Fernando, pelo artigo primoroso.
    Fogoooo!!!

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