Uma bússola para Maurício Assumpção

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“Ninguém em sã consciência poderia imaginar que o público seria aquele, já que a média do estádio é de oito mil torcedores. Pedimos a carga de trinta mil ingressos, mas o apelo da partida cresceu depois da vitória sobre o Atlético-MG, na quinta-feira. No entanto, não havia tempo hábil para pedir o aumento do número de bilhetes, já isso deve ser feito com até cinco dias úteis de antecedência “.

Assim, dessa forma sucinta e singela, o presidente Maurício Assumpção definiu o que ocorreu na tarde de segunda-feira, no Engenhão.

É pouco, presidente. Muito pouco.

Demorei mais de dois dias para tocar nesse assunto porque gostaria antes de ler os relatos de quem esteve no nosso estádio na tarde de feriado.

Mas eu sou apenas um torcedor que faz um blog para compartilhar opiniões sobre o meu time com botafoguenses de todo o país. Maurício Assumpção, sabemos, também é um torcedor, mas ocupa a presidência do Botafogo de Futebol e Regatas. E  o presidente desse clube não pode se dar ao luxo de esperar tanto tempo para se posicionar publicamente sobre um episódio tão desgastante. Ainda mais depois da imediata e imensa repercussão negativa, eclipsando a notícia que deveria ser destacada na mídia: a torcida do Botafogo superlotou o Engenhão e transformou o estádio no caldeirão tão solicitado por jogadores e pela própria diretoria.

 E o presidente alvinegro não pode também dizer que “ninguém em sã consciência” esperava um público tão grande. Então eu estou louco e inconsciente, porque, daqui de Brasília, fui capaz de enumerar, logo após o passeio em cima do Galo mineiro,  os fatores que garantiriam a presença de um público recorde do Botafogo no Brasileirão 2009:

1 – O fato de o time ter conseguido, enfim, duas vitórias consecutivas em jogos difíceis – e com atuações convincentes.

2- A promoção que permitia a gratuidade para as crianças no dia delas – o jogo virou programa familiar obrigatório para os pais alvinegros ( a diretoria só esqueceu que boa parte dos petizes, apesar de não pagarem ingresso, ocupariam as cadeiras)

3- A redução substancial no preço dos ingressos.

4- O dia e o horário do jogo: 16h de feriado – ou seja: não haveria problema de trânsito na ida ao estádio (o que sempre compromete o público dos jogos realizados às 19h30 no meio de semana), nem insegurança na volta (o que sempre compromete o público dos jogos marcados para as 21h50 no meio da semana, e mesmo os que são às 18h30 de domingo). E ainda foi um dia ensolarado, para incentivar de vez a ida ao estádio. 

5- O fato de o adversário não ter torcida no Rio de Janeiro, nem em número diminuto. Ou seja: os chefes de família sabiam que não haveria risco de enfrentamento, era jogo de uma só torcida – daria para levar mulheres e filhos sem medo de conflito nas adjacências do estádio.

Todos esses fatores deveriam ter sido levados em conta pela diretoria, mas, “em sã consciência”, eles não conseguiram formulá-los.

Agora, vamos aos erros do presidente. Todos, como vocês perceberão, estão ligados a duas palavras: amadorismo e omissão.

1 – Deixar seu vice de comunicação fazer ainda no domingo um pronunciamento hesitante, confuso e descabido, recheado de pérolas como “eu não sabia porque voltei da Europa no sábado”. O caso era de gerenciamento de crises – e a primeira declaração pública de um dirigente do Botafogo, ainda que acompanhada de um pedido de desculpas, foi um desastre. O que já estava ruim ficou pior.

2 – Ignorar a gravidade da situação descrita nos inúmeros relatos dos torcedores que conseguiram entrar no Engenhão. Dizer que, dentro do estádio, não houve nada de grave é provocar novamente a irritação de quem ficou apertado, sem água, preocupado com seus filhos e temendo o tempo todo o surgimento do estopim para uma tragédia.

3 – Ignorar a dimensão do episódio na mídia. Ora, se o principal jornal do Rio de Janeiro deu foto na primeira página da edição de terça de torcedores alvinegros sendo espremidos na entrada do estádio, a reação tinha que ter sido imediata, ainda na terça-feira, para equilibrar o noticiário a partir do dia seguinte. Mas não, o presidente não apareceu em público e só surgiu em reunião do conselho deliberativo na noite de terça. Tempo desperdiçado.

3- Não se dirigir ao torcedor e pedir desculpas diretamente a ele. Nem precisava convocar entrevista coletiva. Bastava postar um pronunciamento no site oficial do clube e no YouTube, agradecendo a presença de todos, citar as providências que serão tomadas para evitar que o episódio ocorra novamente e reforçar a importância da presença dos torcedores nas próximas partidas. Ou seja: assumir a importância do cargo que ocupa. Do que ele representa. Especialmente em momentos de crise.

4- Facilitar a devolução do dinheiro do ingresso.  Colocar a devolução apenas nas bilheterias do Engenhão é mais uma piada de mau gosto com o torcedor que demorou horas para entrar no estádio. Certamente terá gente que vai gastar mais para chegar novamente ao estádio do que desembolsou no ingresso.

5- Evitar, de todas as formas mesmo que indiretamente, dar algum tipo de declaração que transfira a culpa para a torcida – inclusive aos que deixaram para comprar ingressos em cima da hora. Esse, para mim, é o mais grave pois não se pode responsabilizar de forma alguma quem fez de tudo para incentivar o clube em momento delicado.

Enfim, só quero dizer que, ainda bem, que a torcida do Botafogo é MUITO maior do que a sua diretoria.

Por fim, peço ao presidente que observe com muita atenção a foto acima. Emoldure e coloque na sua sala.

Essa fotografia, presidente Assumpção, deveria ser a sua bússola. 

Olhe primeiro para o time perfilado. Ignore as faces transitórias do atual elenco e se detenha na camisa: nela brilha uma estrela. E foi essa estrela que atraiu os milhares anônimos que estão lá atrás, se apertando nas cadeiras e arquibancadas. E, mesmo com tanto sofrimento, mesmo com tanta desorganização, mesmo com tanto descaso, mesmo com tantos percalços, esses milhares de anônimos – homens, mulheres, velhos, adolescentes, crianças, zona norte, zona sul, cariocas e de outros estados – ainda estão dispostos a se unir para gritar até perder a voz em nome de sua paixão. São especiais; são botafoguenses. 

Nossa torcida, nossa história, nosso estádio, nossa estrela – os nossos maiores patrimônios estão nessa foto, presidente. 

 Não os desrespeite novamente.

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12 Respostas para “Uma bússola para Maurício Assumpção

  1. ótimo texto, nem preciso acrescentar mais nada, você disse tudo!!!!

    abraço!!

  2. Assim que comecei a ler achei que o único comentário que eu faria aqui seria em relação à primeira frase do texto:

    Sã consciência é uma coisa que ninguém lá tem.

    Mas continuei a ler e o final do texto disse tudo e deveria estar publicado em um jornal de grande circulação, pendurado no espelho do banheiro de todos dessa diretoria e no outdoor que fica exatamente em frente à General Severiano.

  3. Essa corja que se apoderou de GS faz de tudo para apequenar o nosso amado BOTAFOGO!
    A roubalheira deve ser boa, pois muitos deles não largam o poder e estão sempre, no mínimo, opinando sobre o que fazer.
    Basta algumas vitórias ou boas partidas que a torcida comparece. Sempre foi assim e estamos ávidos para mostrar a nossa força e poder. Poder esse que a quadrilha de GS quer apequenar.

    Abs e Sds, BOTAFOGUENSES!!!

  4. Perfeito!
    Quem dera se pudessemos fazer com que o Omisso lesse esse texto, isso faria certamente ele ver ( oque nem ele mesmo consegue enxergar, nem seus capangas…) que sua trajetória está ficando cada vez mais manchada e…
    S.A…

  5. Já postei em outros blogs minha aventura. Foi lastimável.

  6. Belo texto. Ignorei o assunto no meu blogue porque seria tão violento a analisar as frases desses desmiolados dirigentes que decidi nada dizer. Sã consciência é coisa que não habita General Severiano. Nem sã nem doente – não há consciência nenhuma do que quer que seja.

    Abraços Gloriosos!

  7. Marcelo, apenas posso dizer que sou um pai orgulhoso, neste momento, por dois motivos: 1 – ser um velho botafoguense ( e ter filhos e netos, também) e 2 – por esse seu texto: enxuto, consistente, determinado e, principalmente, escrito com sinceridade, raiva e amor.
    Fique certo de que foi um dos três melhores já produzidos neste Fogo que cada vez se torna mais eterno.
    E, apesar de tantos erros, quão belo e luminoso é o brilho da estrela solitária!

  8. Parabéns pelo blog e pelo excelente texto. Sou botafoguense, moro em Brasília e compartilho deste amor pelo Fogão. Excelente seus textos, do Pereira… Igualzinho eu e meu pai hehehe telefonemas no intervalo e depois do jogo! É isso aí!

  9. SEM DÚVIDA, BELO TEXTO.
    QUERO TAMBÉM RELEMBRAR DOIS OUTROS EPISÓDIOS QUE ESTIVE PRESENTE: EM 93 NA COMEMBOL E NO ANO PASSADO PELA COPA DO BRASIL CONTRA O RIVER DO PIAUI, ONDE UM AMIGO E EU TIVEMOS QUASE QUE ARRANCAR UMA DAS CATRACAS AFIM DE EVITAR QUE NOSSOS FILHOS FICASSEM IMPRENSADOS.
    MEUS FILHOS TÊM 8 E 9 ANOS E DE MEU AMIGO IDEM.

  10. Muito bom, Marcelo!
    Mas esse MA é curioso, né?
    Se TODA a torcida esperava um excelente público, a quem ele se refere quando diz que “ninguém em sã consciência” esperava tanta gente?
    Ehhhh….presidente Omissão…mais 2 anos….
    Abs e SA!!!

  11. Marcelo,
    Por motivos de saúde andei ‘bem’ afastado dos blogs. Em minha volta – ainda lenta e sem vigor –, encontro meu desabafo em relação às declarações e ‘providências’ tomadas pela direção do clube a respeito do ocorrido no Engenhão perfeitamente articulado no seu texto.

    A consciência sã de somente um botafoguense põe em cheque o vácuo de consciência, inteligência e dignidade da atual diretoria e aliados. Faltam-lhe apenas neurônios? Acho que o que mais falta a este grupo de rapineiros é amor ao clube.

    Saudações alvinegras!

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