Estádio Mané Garrincha, fim de tarde do primeiro sábado de outubro de 2009.
Semifinal da segundona candanga, segundo tempo. O sol se põe, mas os refletores não são acesos – o fim do jogo é disputado praticamente às escuras.
Ocaso anunciado no placar: Brazsat 1 x 0 Botafogo-DF. A torcida não desiste, permanece.
Quer que Túlio Maravilha, com a camisa 900, tenha ao menos uma chance de gol. Até então, o centroavante nem pôde concluir sequer uma jogada – a bola simplesmente não chegou no seu pé durante todo o primeiro tempo e parte da segunda etapa.
A torcida se exaspera – o time é fraco, mas nesse sábado está ainda pior: zero de criação, zero de conclusão. A arbitragem também é horrorosa: inverte faltas, deixa todo mundo irritado.
Atrás de mim, nas cadeiras amarelas, um senhor perde a calma:
- Ô meu Deus, antes eu só sofria uma vez por semana. Agora vou ter que sofrer duas vezes??
Minutos depois, Túlio responde à pergunta desesperada. Após um cruzamento rasteiro, ele se posiciona de frente para o gol. A bola, enfim, chega para ele. O chute sai seco, reto, direto, de cima para baixo. A bola estufa as redes: um golaço.
1 x 1.
A torcida, até então amortecida pela mediocridade da partida, acorda e saúda o ídolo. Grita “Túlio Maravilha, nós gostamos de você” . Ele retribui com aplausos.
Pacto renovado: da torcida com Túlio, de Túlio com o gol.
Mas o pacto de Túlio é com o Botafogo – e tem coisas que só acontecem com o Botafogo.
A torcida grita: “Vamo virar Fogo… Vamo virar Fogo, ô!”
Poucos minutos depois, a resposta.
Quase no finzinho, aos 41 minutos, mais um cruzamento pela direita – dessa vez é o goleiro do Brazsat que se apavora e deixa a bola passar. E ela, como uma antiga namorada, corre para reencontrar quem a conhece com total intimidade. Túlio não ignora o desejo da bola e a empurra de cabeça, sem muita força mas com precisão, para dentro das redes.
É a segunda chance de Túlio na partida. É o segundo gol de Túlio na partida.

Botafogo 2 x 1.
A torcida enlouquece. Quase toda concentrada nas cadeiras do estádio com o nome do maior ídolo do seu clube, fica em pé até o apito final. Grita o nome do ídolo, que faz questão de vir em direção aos torcedores para beijar o escudo glorioso. Os aplausos são recíprocos.
De arrepiar.
A torcida deixa o estádio cantando o hino – nos corredores, todos se entreolham, sorrisos cúmplices, olhos ainda incrédulos pelo que acabam de ver. Sabem que foram testemunhas de mais um momento iluminado da carreira de um dos maiores artilheiros da história do Botafogo.
Túlio, foste herói em cada jogo – até mesmo aos 40 anos, treinando duas vezes por semana, na segundona do futebol do Distrito Federal, contra um time de empresário.
Placar final: Botafogo-DF 2 x 1 Brazsat.
O alvinegro candango, agora, tem a vantagem do empate na partida do próximo sábado, no estádio do Cave, no Guará. Se ganhar ou empatar, estará na primeira divisão do futebol do Distrito Federal.
Faltam agora oito gols para o atacante alcançar a marca prometida de chegar ao gol 900 ainda em 2009.
Que maravilha, Túlio.
Foto: Site EsporteCandango