Primeiro lugar (de cabeça pra baixo!)
C. Pereira
No ano passado, quando Cuca e Bebeto de Freitas aprontaram tudo a que tinham direito (lembram do espetáculo nos Aflitos, do chororô no vestiário após (mais) uma derrota ante o flamengo?), escrevi aqui no Fogoeterno que me impunha o direito de dar um descanso no futebol.
Mas, como torcedor não tem palavra, voltei quando o time – contrariando todas as expectativas – tomou jeito de equipe e, Maicosuel à frente, conseguiu ganhar uma (modesta) taça – a Guanabara.
Aquilo nos iludiu profundamente, pois o que se viu depois foi, realmente, a beira do caos – sem alusão à discutível (em termos de qualidade) musiquinha do treineiro botafoguense. Ainda, estando no Rio, tive ímpeto de ir assistir à final do campeonato carioca. Graças a Deus e às dificuldades de chegar ao Maracanã, lá não estive e assim me livrei de pagar mais um mico – dessa vez com direito à decisão nos penaltys, os nossos perdendo todos e o goleiro deles pegando todos…
Hoje comunico aos que lêem esta (gloriosa) página que resolvi, mais uma vez e por uns bons tempos, exonerar-me do futebol. Afinal já são mais de 60 anos de futebol dedicados ao querido Botafogo de Futebol e Regatas e as decepções ultimamente me desencantam cada vez mais.
Pensei: se em 60 anos não vi totalmente o futebol é porque nunca tive olhos para vê-lo. Sim, já vi o futebol, mas do que vi, já vivi, sofri, quase morri o futebol. Valeu muito a pena e o prazer, mas não vejo sentido perder os sábados e domingos, com ansiedade, aumento da pressão arterial e falta de coragem para enfrentar os gols que o Botafogo toma no fim do segundo tempo e as goleadas que vem sofrendo dos adversários. Pois é, agora virou moda cair de quatro (contra o Vitória e contra o Goiás) e cair de quatro – como já disse Nelson Rodrigues, além de tudo, é simplesmente humilhante!
Eu que já abdicara do sacrifício de ir aos estádios, enfrentando o tráfego, a violência e outros males afins, para assistir do alto da arquibancada ao espetáculo tão visto e revisto, agora renuncio, também, a acompanhá-lo pela televisão, pois essa quase obrigação nos últimos finais de semana só me trouxe dissabor, raiva e tristeza.
Já vi o futebol. Hoje prefiro e só me cabe rever as fitas da lembrança, onde se gravam os melhores lances do meu aturado exercício de espectador. Não me cansei do futebol, mas no momento dele me retiro, para preservar meu patrimônio de memórias, sem desgaste da ansiedade que sei vai continuar ao saber dos resultados do meu clube de coração (perca ou ganhe!).
Mas permaneço, na minha idade quase provecta, a esperar milagres (que já testemunhei) que de vinte em vinte anos soem acontecer. Quem sabe, em 2015, terei vida e alegria para comemorar o título de campeão brasileiro pela segunda vez?
O futebol já me viu. O futebol jogou-me como quis. O que colhi no campo dá perfeitamente para eu viver mais 10 ou 15 anos. No meu elenco de craques há vívidas memórias de Nilton Santos, Garrincha, Didi, Zagalo e tantos outros que honraram a famosa e bela camisa alvinegra com a estrela solitária no peito esquerdo. Meu destino era amar o futebol.
Amei-o. Como se ama a primeira namorada, a mulher mais encantadora, a paisagem mais bonita, a música mais melodiosa, a poesia mais bem construída. E o fiz com todas as forças que, agora têm menos vigor, estão mais combalidas.
Resta-me, neste momento, um sentimento que não sei se é de decepção, de tristeza, de raiva ou de dor. Talvez seja um misto de tudo isso, acrescentado de uma enorme dose de vergonha.
É isso – estou morrendo de vergonha…
Só uma coisa me anima nesta escura segunda-feira de inverno, que tão escura, tornou difícil enxergar a posição do Botafogo na tabela de classificação no atual campeonato brasileiro.

Tentei, persisti e finalmente, resolvi o impasse: virei a tabela de cabeça pra baixo. E consegui descobrir (tal qual Diógenes) de lanterna acesa na mão em plena luz do dia que, pela primeira vez em 2009, graças aos esforços de Maurício Assunção, Ney Fra(n)co e alguns outros abnegados botafoguenses, estamos ocupando com (nenhuma) honra o primeiríssimo lugar…
Seria cômico, se não fosse trágico…
C.Pereira é jornalista, alvinegro e, antes de tudo, um homem sábio





