Fogo Eterno

As crônicas do Pereirão – Harry, o goleiro

22 15UTC 07pmTue, 15 Jul 2008 20:16:18 +0000ç2008, 2008 · 1 Comentário

                                   

A maior defesa de Harry Carey

C. Pereira
Harry Carey foi, ao longo da história do futebol da Paraíba, o goleiro mais famoso do Treze Futebol Clube. Por muitos anos, no arco trezeano ou nas traves da seleção paraibana, cuja camisa também envergou, ele se tornou um personagem lendário no nosso futebol.
A começar pelo nome, esquisito para os dias de hoje, mas de  fácil compreensão naquele tempo. Filho de pais índios, nascido em Águas Belas, Pernambuco,  praticamente se criou e se fez conhecido como jogador em Arcoverde. O seu nome de batismo era Sebastião mas o apelido lhe foi dado porque o menino não perdia a  matinê dos domingos do cine Bandeirante da cidade que passava seriados de faroeste cujo principal ator era Harry Carey (foto acima), famoso pelas peripécias que desenvolvia ao longo dos seus filmes de aventuras.
O moreninho Bastião passou a imitar Harry Carey nas peladas que jogava junto com outros meninos do bairro – pulando, voando, dando salto mortal e Arcoverde viu  naquele menino  uma promessa para o futebol local. Treinando sem compromisso no time reserva do Democrático, um diretor do clube o observou e pediu permissão ao pai do garoto para que ele fosse jogar no time principal.
Assim começou a sua carreira que teve momentos de glória, principalmente nas defesas eletrizantes que fazia defendendo o arco do Treze, da seleção da Paraíba e até pela seleção do Ceará, onde jogou algumas vezes.
Eu, ainda garoto, freqüentador assíduo do campinho do Cabo Branco, em João Pessoa, lembro de alguns jogos de que Harry Carey participou. Um deles ficou na minha memória e até hoje parece que o estou vendo: O Botafogo enfiou 4×1 no Treze e, num dos últimos gols botafoguenses, Harry Carey voou tão alto que, não conseguindo evitar que a bola entrasse, ficou com um dos pés presos nas redes – para delírio da torcida do Botafogo.
Recordo também que num dos anos de disputa do campeonato brasileiro de seleções, a Paraíba jogou contra Pernambuco e no primeiro jogo, aqui no Cabo Branco, tomamos uma goleada de 5 x 1. Arnaldo Von Shosten foi o juiz e recordo que, no intervalo, conversando com os torcedores postados junto ao alambrado, Arnaldo (sério, honesto e respeitado) disse claramente que o time local – do jeito que as coisas estavam caminhando – iria perder de muito, até porque o nosso goleiro não era Harry Carey.
Pois bem, no segundo jogo, no Recife, Harry Carey foi escalado e pegou até pensamento e de lá não saímos com uma vitória, porque o juiz achou de marcar um penalty a favor da seleção pernambucana – arrancamos um honroso empate de 1×1 e Harry Carey foi considerado o melhor jogador da partida.
 Essa trajetória brilhante de Harry Carey  não o fez independente  com o que ganhou no futebol. Ao morrer, ele mantinha um modesto bar em Mataraca, às margens da BR-101, quase na divisa da Paraíba com o Rio Grande do Norte.
 A não ser por aqueles que o viram e nunca esqueceram as espetaculares defesas que o transformaram numa verdadeira lenda do futebol nordestino, o que se guarda mais em Harry Carey é a resposta  interessante que deu a um repórter, ao ser indagado de qual a maior defesa que tinha feito na sua carreira de goleiro:
 - Foi uma bola atrasada pelo compadre Urai que ia me pegando desprevenido. Mas consegui voar e, bem no ângulo tirei com a mão e joguei a bola pra escanteio…
Para quem não sabe, Urai era um vigoroso negrão, beque central do Treze que jogou por muito tempo ao lado de Harry Carey e padrinho de um dos filhos do goleiro.
       

C.Pereira é jornalista e alvinegro, não necessariamente nessa ordem

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  • BENTO SOARES // 22 09UTC 06amTue, 09 Jun 2009 09:22:32 +0000ç2009, 2008 às 12:48 p06 | Responder

    Caro Pereirão,
    Fico feliz pela excelente matéria sobre este gênio das traves. Parecido com ele, somente o Júlio César na fase atual. Igual a ele, ninguém foi. Ví-o em ação, já no final da carreira. Estávamos no ano de 1964 e ele chegou a Juazeiro do Norte para defender o Guarany local. Jogando no campo de chão batido do velho Estádio da LDJ (Liga Desportiva Juazeiense), Harry Carey “lacrou” o gol do “Leão do Mercado”. Com suas defesas incríveis, foi campeão daquele ano e deixou o time como o melhor goleiro da história do clube. A república dos jogadores do Guarany ficava pertinho de onde eu morava. Por isso, era comum passarmos por lá e ver o velho Harry Carey, sentado numa rede, a tocar a sua inseparável sanfona. Alto e corpulento, era um gigante para os padrões da época. Seu bigode e as feições carrancudas escondiam uma pessoa afável, um pai de família dedicado e um companheiro leal. Toda segunda-feira, seu dia de folga, lá estava ele no Bar do Pedrinho junto com os amigos Mormaço, Paulo e Lula tomando uma biritas. Era o momento da nossa tietagem. Fazíamos-lhe muitas perguntas. E ele, atenciosa e pacientemente, atendia a todos nós. Senti a sua morte. Lamento não ter tido a oportunidadde de lhe dizer, pessoalmente, que, pra mim, ele foi o maior do mundo na posição.

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