
É a famosa situação do copo com água pela metade. Está meio cheio ou meio vazio?
No caso dos clássicos cariocas do Botafogo no Brasileirão, depende de quem encheu o copo.
Ainda com Cuca, o time jogou muito mal contra o vasco e, pior ainda, contra os reservas do fluminense – neste caso, já sob o comando (?) do Geninho. Em ambos os casos, o time não jogou bem e, na verdade, escapou da derrota. Copo vazio.
Nesse domingo foi diferente.
Ney Franco surpreendeu na escalação. Para fechar o time e impedir os avanços dos laterais rubro-negros, teve peito de botar Lúcio Flávio no banco e mostrou, como disse no final da partida, que não vai escalar o time de acordo com o salário de cada jogador. Recado mais claro, impossível.
A estratégia deu certo, mas apenas parcialmente. Pois, se Léo Moura e Juan não criaram graças à marcação dura de Alessandro, Triguinho e Zé Carlos, no ataque o time pouco criou e, sim, sentiu MUITA falta de Lúcio Flávio na organização das jogadas ofensivas e, especialmente, no passe. Carlos Alberto não assumiu a responsabilidade de criação e o time simplesmente não conseguia criar jogadas. Pior: errava passes de forma contínua – Triguinho, Zé Carlos e Diguinho se “destacaram” nesse quesito. No ataque, Jorge Henrique pouco criava e Wellington voltava a brigar com a bola, com finalizações horrorosas.
Resultado: o time quase não teve chances e tomou sufoco, mas nada também assustador. O único susto sério teve como protagonista Renato Silva, no finalzinho do primeiro tempo: depois de falhar bisonhamente, ele conseguiu recuperar o ouro que ele mesmo havia entregue a Obina. Salvou a bola em cima da linha.
Lúcio Flávio entra no lugar de Zé Carlos no intervalo. E, em poucos minutos, a partida muda completamente.
Demonstrando motivação como poucas vezes vimos nessa temporada, Lúcio Flávio não só dá velocidade ao ataque, como deixa Wellington na cara do gol com ótimo passe e investe inclusive no desarme, com eficiência. E o Botafogo estrangula o adversário em seu campo. Aturdido, o flamengo erra muitas saídas de bola, mas se mostra perigoso no contra-ataque graças a erros primários de posicionamento da defesa alvinegra.
Aí foi um festival de chances criadas, que só não foram convertidas em gol por questões de centímetros. Caso da belíssima jogada individual de Túlio, culminada com chute na trave. Além de uma bola salva quase dentro do gol por Fábio Luciano após conclusão de Jorge Henrique e um tirambaço de WP no pé da trave do Diego. Era a hora de Carlos Alberto fazer a diferença, mas, infelizmente, ele não estava em tarde inspirada e não conseguiu decidir a partida.
O Botafogo encurralou o flamengo durante quase todo o segundo tempo. Se fosse no boxe, era a típica situação de levar o adversário às cordas e desferir uma série de golpes – faltou, porém, o upper capaz de derrubar o oponente. Faltou o nocaute. Mas a urubuzada continuava a ameaçar nos contra-ataques e, graças a incompetência de Obina e à segurança de Castillo, escapamos de uma derrota que seria extremamente injusta – Juan também teve uma chance incrível, desperdiçada praticamente de dentro da pequena área.
O placar final ficou no 0 x 0, mas há dois vencedores na partida: Ney Franco, que se impôs perante ao grupo, e a torcida alvinegra que, mesmo confinada, se impôs e calou a nassão rubro-negra. Essa vitória foi de goleada.
Então, o copo alvinegro ficou pela metade: meio cheio, por conta do segundo tempo. Meio vazio, pela incompetência para liquidar a partida e consolidar a supremacia conquistada.
Assim eles atuaram:
Castillo - Segurança no momento certo. Nota 7
Alessandro - Bem na marcação, razoável no apoio, mal na finalização. Nota 6
Renato Silva – Um vacilo incrível, uma recuperação notável. No resto, o de sempre. Nota 5
André Luiz – Um pouco melhor do que RS, especialmente no primeiro tempo. Nota 6,5
Triguinho – Razoável na marcação, mal no apoio. Nota 5
Túlio – Discreto no primeiro tempo, cresceu muito na segunda etapa com a entrada de LFlávio. Pela entrevista do intervalo, fica claro que não gostou da escalação inicial do time. Quase faz um golaço. Nota 6,5 Foi substituído por Gil, que fez ao menos uma jogada perigosíssima e também perdeu duas bolas de forma displicente. Falta muito para ser um diferencial. Nota 5
Diguinho - Bancou a marcação com personalidade, mas a média de passes errados cada vez aumenta mais. Nota 6
Zé Carlos – Muito mal. Errou passes de meio metro, marcou com dificuldades e atravancou os ataques alvinegros no primeiro tempo. Nota 3,5 Foi substituído no intervalo por Lúcio Flávio, que mudou o jogo ao acertar o passe e comandar as ações ofensivas da equipe. Nota 7,5
Carlos Alberto – Um chute perigoso, duas fintas dentro da área, zero gols. É pouco para o salário que ganha, especialmente num clássico. Nota 5
Jorge Henrique – Esparsas jogadas pelas pontas, algumas boas investidas pelo meio. Cresceu com a entrada de LFlávio mas faltou acertar a finalização: a bola dentro da área que preferiu cruzar em vez de chutar direto para o gol mostra toda sua insegurança em momentos decisivos. Nota 5
Wellington Paulista – No primeiro tempo, não acertou nada. Na segunda etapa, produziu bem mais e quase faz um gol antológico ao matar no peito e concluir de primeira – a bola, caprichosamente, bateu na trave. Nota 6
Ney Franco – Mais importante do que saber se ele errou ou não na escalação (acho que ele acertou), é perceber que tem um plano de jogo e faz alterações fundamentadas nesse plano traçado. Tem coerência e tranquilidade. Temos técnico. Nota 7,5