Millôr Fernandes lançou uma vez um dicionário com traduções literais de expressões para o inglês. O resultado é bem divertido, primor de ironia.
Pois é, my black-and-white friends, baixou um Yázigi rápido no Fogo Eterno na hora de contar que, contra o Atlético-MG nessa quinta-feira pelas quartas-de-final da Copa do Brasil, o Botafogo cansou de fornecer alimento pastoso para a má sorte. Givin´soup for a bad luck, enfim: de dar sopa para o azar. E, por sorte, o Galo estava de barriga cheia e recusou o banquete que lhe foi oferecido.
Desfalcado, com titulares abaixo do rendimento habitual (Alessandro, Túlio, Lúcio Flávio, Leandro Guerreiro, Jorge Henrique) e, para piorar, outros no rendimento habitual (Zé Carlos), o Botafogo escapou por pouco, muito pouco mesmo, de uma derrota.
Sim, tivemos duas bolas na trave; ambas no primeiro tempo, ambas com Fábio Fabuloso, o Will Smith de Arapiraca. Mas o que dizer de um centroavante que acerta muito mais o poste do que o gol (remember Guanabara´s Cup, against Evil Empire) ? Que, obviamente, ele JAMAIS pode ser titular no Botafogo, a não ser que a International Board altere as regras do futebol e passe a contabilizar bolas na trave como partes de um gol- aí o Fábio será artilheiro da temporada. E que, por isso, a ausência de Wellington Paulista foi especialmente danosa para quem almejava marcar ao menos um gol fora de casa.
A tríade armada por Cuca na zaga foi muitas vezes envolvida pelas triangulações atleticanas, que chegavam tocando a bola e avançando na área sem grandes dificuldades, especialmente no segundo tempo. A sorte é que a impressionante má pontaria dos caras foi de arrancar os cabelos da torcida (adversária, graças a Deus).
O Botafogo simplesmente não conseguiu fazer o seu jogo: tocar a bola, fazê-la rolar até aparecer uma oportunidade concreta. Para isso, contribuiu novamente a opaca participação de Jorge Henrique, que agora tem dificuldades até para matar a bola. O chute que deu a gol no segundo tempo foi sintomático: era para ter sido uma bomba, saiu um peteleco.
Sobre Zé Carlos, nada mais tenho a comentar, a não ser que a quantidade de passes que este simpático rapaz erra a cada jogo cresce agora em progressão geométrica, não mais aritmética (PA e PG, lembram da sétima série?). Por duas vezes, armou contra-ataques perigosíssimos nesses vacilos inaceitáveis para um jogador profissional. Ou seja: para quem chegou com pinta de substituto de Zé Roberto, Zé Carlos está cada vez mais parecido com o que havia de mais irritante em Joilson – e sem a habilidade deste último.
No segundo tempo, as chances perdidas pelo time mineiro foram muito mais claras, e as mais perigosas, salvo engano, ocorreram pelas bandas do Leandro Guerreiro: duas delas simplesmente incríveis, uma com Almir e outra com um reserva que esqueci o nome e tô com preguiça de procurar, daquelas de o cara passar a noite em claro, se perguntando: “como-é-que-eu-consegui-perder-um-gol-desse?”.
E depois dizem que o Cuca não tem sorte…
Um outro problema: Diguinho, cada vez mais sobrecarregado, começa a demonstrar cansaço e errar passes relativamente fáceis. Mesmo assim, dos três volantes, ainda é o único que considero como titular absoluto - Túlio pareceu cansado, sem pique para marcar, e isso preocupa. A zaga fica ainda mais exposta.
Mas foi tudo ruim? Não, longe disso.
O zagueiro estreante, Bruno Costa, não comprometeu tanto. Demonstrou virtudes, apesar de perder algumas bolas na corrida (mas Ferrero é titular absoluto – só Cuca não enxerga isso).
E Túlio Souza, para delírio de seu presidente do fã-clubedo, o Vieira, começou a mostrar ao que veio, quando entrou no segundo tempo. Marcou bem e nao errou passes de 50 cm. Ainda não consegue acertar um chute no gol, mas ele chega lá.
O melhor: Renan demonstrou, novamente, segurança e tranquilidade. A bola praticamente não saía da área alvinegra, por isso o goleiro foi bastante acionado, especialmente nas bolas aéreas (grande problema do Castillo). Ele permaneceu imperturbável, demonstrando também ótimos reflexo e senso de colocação. Imaginaram esse jogo com o Julio Chester no gol? Pois é, eu imaginei e logo fiz questão de esquecer para evitar pesadelos na madrugada.
E por falar em pesadelo, a visão de Marcos Leandro no banco foi mais assustadora do que Freddy Krueger e Zé do Caixão juntos.
No mais, é torcer para que Jorge Henrique, Túlio e Lúcio Flávio se apresentem no Engenhão com mais disposição. E torcer também pelo rápido restabelecimento de Wellington Paulista, a tempo de estar em forma para o segundo jogo. Porque sem um centroavante de ofício em jogo que será preciso vencer, a vaca da Copa do Brasil pode ir para o brejo.
Ou melhor, como diria o Millôr: Brazil´s Cup Cow can go to the swamp.
foto:Lancenet

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